É dela, literalmente dela, a bonita toada que faz parte da trilha da novela ''Esperança''. Mas se a novela da Globo despenca em audiência, a autora de ''Onde ir'' multiplica o séquito de admiradores a cada vez que a música embala uma cena.
A canção é o cartão-de-visitas do disco de estréia homônimo de Vanessa da Mata, a mais nova revelação da MPB. Festejada por críticos até antes de entrar em estúdio, a cantora mato-grossense chega ao mercado na condição de intérprete e compositora de quilate.
O CD, lançado pela Sony, traz 11 faixas, dez de sua autoria. A exceção é ''Alegria'', de Assis Valente e Durval Maia. Aos 26 anos, Vanessa é dona de 250 composições à espera de gravação. Para o primeiro álbum, garimpou baladas e sambas de várias tonalidades. Incluiu ''A Força que nunca Seca'', parceria com Chico Cesar e gravada por Maria Bethânia em 1999. Registrou ''Viagem'', gravada por Daniela Mercury.
O material beira o impecável, tal a harmonia das faixas escolhidas com os arranjos, a execução instrumental e a performance da cantora. A produção foi assinada coletivamente por Vanessa, Jacques Morelenbaum, Luiz Brasil, Dadi & Kassin, Liminha e Swami JR. O trabalho não traz concessões, não recorre a abordagens pasteurizadas de ocasião, não tende ao pop.
O recurso à eletrônica foi domado, aparecendo apenas em discretas interferências na faixa ''Case-se Comigo''. Em ''Carta'', outro destaque do repertório, ela cita Machado de Assis acompanhada de piano, cellos e violinos. ''Memórias Senhor Brás Cubas Postumavam / Enquanto vi passar Helena pra casa de chá / Devagar, bonde na praça / Ainda borda delicadeza / Torna a gente / Banca de flores / Libertando sorrisos no ar'' canta, com seu timbre agudo e aveludado.
Em ''Delírio'', o fraseado rítmico e os ''tchú-tchú-tchús'' remetem a Djavan. O sotaque regionalista aparece em ''Eu Não Tenho'' (''Eu não tenho chão / eu não tenho casa / Eu não tenho pão / Estou vendendo as asas / Que possuo / Por não ter nada mais''), pontuada pelo acordeom de Chico Chagas. A morena de vastos cabelos levou um ano e meio para gravar o disco.
Até ser contratada, colheu algumas frustrações. Tentou ser modelo, mas não se acostumou com as exigências de peso e medidas. Ligada em música desde pequena, na cidade de Alto Graça (MT), deixou a casa dos pais aos 14 anos para continuar os estudos em Uberlândia (MG). Lá, começou a cantar em bares um deles tinha como atração principal o então desconhecido grupo Só Pra Contrariar.
Dois anos depois, mudou-se para São Paulo. Começou fazendo backing vocal da banda feminina de reggae Shallabal, depois foi convidada para integrar o grupo jamaicano Black Uhuru, após uma passagem deste pelo Brasil em 1995. Sua participação na turnê deslumbrou os músicos, que queriam incorporá-la definitivamente à formação.
Quando Vanessa já sonhava em conhecer a terra de Bob Marley, supostas fofocas das outras cantoras do grupo acabaram melando a viagem, e ela foi deixada para trás sem explicações. Não demorou muito, entrou para o Grupo Mafuá, especializado em ritmos brasileiros. Ficou quatro anos, até que conheceu Chico César, que produziu seu CD demo com a ajuda do violonista Swammi JR. O resto, o público começa a descobrir agora com o lançamento do disco, que traz uma das melhores estréias dos últimos anos.
Agora só falta a Maria Rita Mariano lançar o seu, ela que vai gravar uma música de Vanessa e foi eleita ontem a revelação musical de 2002 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

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