Uma cantora cheia de classe
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quinta-feira, 03 de outubro de 2002
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
De modéstia, ela não padece. Muito menos de falsas modéstias. Detentora de um poderoso instrumento de trabalho no caso a voz , Leny Andrade sabe que em mais de 40 anos de carreira conseguiu o que poucos artistas brasileiros alcançaram inclusive no exterior: prestígio, credibilidade, respeito. Portanto, é impossível não cunhar frases cheias de adjetivos e elogios hiperbólicos ao se referir a essa senhora cantora que insiste em se esquivar do rótulo de diva. ''Tenho capacidade e cultura mas isso não me dá o direito de ter o nariz para cima. Prefiro ser uma mulher comum que canta as dores e os amores das mulheres comuns do que ser ser chamada de diva. Dou mais valor às coisas espirituais'', disse Leny Andrade à Folha2, por telefone, numa entrevista intercalada com bom humor, tiradas ácidas e, principalmente, sabedoria que só os grandes possuem.
De volta a Londrina, Leny Andrade traz novamente na bagagem todas suas virtudes artísticas. E, pelo segundo ano consecutivo, certamente será ovacionada pelo público que comparecer hoje ao show ''Bossa, Swing & Bolero'', mais uma boa tacada do projeto ''Royal Golf in Concert'', promovido pela Teixeira & Holzmann Empreendimento Imobiliários. O espetáculo está marcado para as 20h30, no Londrina Country Club, e será restrito apenas a convidados. No palco, Leny estará acompanhada dos seguintes músicos: Fernando Merlino (piano e teclado), Lúcio Nascimento (contrabaixo), Adriano de Oliveira (bateria), Roberto Stepherson (sax e flauta) e Humberto Mirandelli (violão e guitarra).
O repertório ela não deu de mão beijada. Motivos particulares, bem-humorados e até certo ponto com fundamento: ''Falar do repertório tira o impacto e toda a surpresa do show. Ando pelo mundo inteiro e não entendo porque só a imprensa brasileira tem essa mania de querer saber o que a gente vai cantar. É a mesma coisa de perguntar: 'cê vai de vestido preto, sapato branco e penduricalhos? Ah, perde a graça''.
Uma ou outra canção ela solta: ''Refém da Solidão'' (Baden Powell - Paulo Cesar Pinheiro), ''Mandingueiro'' (Moacyr Luz - Aldir Blanc), ''Lugar Comum'' (João Donato -Gilberto Gil), ''Olha'' (Roberto -Erasmo Carlos), além de boleros e clássicos da Bossa Nova. ''Saigon'' ou ''Tu mi Delirio'', duas canções bem assentadas em sua voz, fazem parte dos segredos musicais de Leny. Ou seja, poderão ou não ser interpretadas.
A noitada musical reserva uma surpresa agradável: a participação especial do cantor Zé Luiz Mazziotti que deverá cantar duas ou três músicas em dueto, provavelmente a escolhida será ''Samba Sem Você'' (Fernando Oliveira- Rosa Passos). ''Geralmente eu canto o que já gravei. Posso dizer que meu show tem de tudo. A única linha que sigo é a da música boa'', avisa.
Então tá! Se é assim, o que não faltam são canções de qualidade que ela deverá pinçar de sua discografia, composta por quase 30 títulos. Resta saber se no show ela vai extrair alguma faixa do próximo CD, a ser lançado até o final do ano, gravado em parceria com César Camargo Mariano. ''Nós'', o disco, foi registrado ao vivo e virá a público juntamente com um DVD gravado no Teatro Guaíra, em Curitiba, há poucos meses. O pacote tem a a lavra da gravadora Albatroz, com distribuição da Trama.
Projetos é o que não faltam na agenda de Leny Andrade. No próximo dia 20, ela se encontra em Nova York com o violonista brasileiro Romero Lubambo, radicado há decadas nos EUA. Lá os dois gravam o segundo disco em conjunto a ser comercializado, inicialmente, somente em solo norte-americano. Aliás, Leny Andrade é assim, assim com o mercado internacional desde meados da década de 80 ela se divide entre o Brasil e Estados Unidos. ''Há alguns anos decidi parar de chorar em cruzeiro para chorar em dólar'', diz brincalhona.
Não à toa, a cantora já participou de um sem-número de festivais de jazz nos quatro costados do mundo daí o título ''The First Brazilian Jazz Singer'' , atribuído a ela com todo o merecimento. Recentemente, participou do Hollywood Bowl, em Los Angeles, ao lado de outros grande artistas brasileiros como Ivan Lins. No final do mês, junta-se ao saxofonista e clarinetista cubano Paquito D'Rivera para uma apresentação em Nova York.
E por aí vai a nossa mais conhecida cantora de jazz-samba, como gosta de definir seu estilo. Mesmo em canções com andamentos mais lentos, a sutileza jazzística se faz notar. Elistista? Ela assume que já foi mais. No entanto, diante da atual situação fonográfica mundial ela tornou-se, digamos, mais flexível, o que não significa ter descambado para o popularesco. ''O mercado atual é feito de 80 por cento de merda e 20 por cento de ouro'', analisa.
Um dos sinais de que o popular pode ganhar contornos sofisticados, foi a gravação, há dois anos, de um disco só com composições de Altay Veloso um autêntico um hitmaker. ''Sei de muita gente que quase me crucificou, mas ninguém tem coragem de falar nada na minha cara porque de música eu entendo. Não sou imbecil. Se a obra dele (Altay) fosse ruim eu não gravaria'', argumenta, cantando, ao telefone, ''O Porteiro'' uma das canções do disco, gravada originalmente pelo grupo de pagode Só Pra Contrariar. ''Quem diz que essa música ou ''Dez a um'' é ruim é maluco'', atesta.
Sim, com tantos anos de estrada Leny pode, a exemplo de um pequeno grupo de cantores brasileiros, se dar ao luxo de cantar o que melhor lhe convier. E para as críticas, a indiferença aliás foi o que fez também outra diva da MPB, Maria Bethânia, quando gravou ''É o Amor'', de Zezé di Camargo. Tudo bem, há canções que podem tocar direta ou indiretamente o gosto de Leny. Mas pelo seu senso crítico há algumas que, ao seu ver, são inócuas. Um exemplo: ''Amor I Love You'', hit composto e interpretado pela classuda Marisa Monte. ''Ela está certíssima em fazer isso...'', diz irônica.
Gostos à parte, uma coisa é certa: tanto em show com em disco Leny Andrade é imbatível. A voz dessa mulher consegue enxertar elegância até mesmo em canções consideradas de fácil apelo popular. E isso somente as divas conseguem, mesmo aquelas que rejeitam determinado rótulo como Leny Andrade.
Serviço:
''Bossa, Swing & Bolero'' show com Leny Andrade. Hoje, às 20h30, no Londrina Country Club (Rua Fernando de Noronha, 977). O espetáculo faz parte do projeto ''Royal Golf in Concert'', promovido pela Teixeira & Holzmann Empreendimentos Imobiliários. O show é apenas para convidados.


