A ''Canção de Dachau'' viaja no tempo. Trata-se de uma música composta no campo de concentração que ficava na fronteira da Alemanha com a Tchecoslováquia, durante a 2ª Guerra Mundial. Ela foi criada no fim dos anos 30 por Herbert Zipper com letra do poeta Jura Soyfer, ambos austríacos. Eles se basearam nas condições desumanas impostas aos prisioneiros pelos nazistas para criar uma peça de resistência que transformava a dor em arte. Esta alquimia contaminou os corações da coletividade de tal maneira que, ainda hoje, é possível imaginar em Dachau as vozes entoando a canção que permaneceria no tempo alcançando, quase por milagre, os ouvidos de outras gerações.
A trajetória desta música é tema do livro ''A Canção de Dachau - uma história para o novo século'', escrito pelo jornalista Paulo San Martin - repórter de ''O Estado de S.Paulo'' - e pelo dentista Paulo Cardoso, que será lançado hoje em Londrina, como parte das comemorações dos 50 anos da Biblioteca Pública. O livro é uma publicação londrinense da Omnous Editora Multimídia.
Mais do que contar como se deu a criação da ''Canção de Dachau'', os autores debruçam-se sobre a trajetória da peça que, a partir da Segunda Guerra, ficou perdida durante quase 30 anos até ser encontrada por acaso por Willi Zobl, outro compositor austríaco.
Willi passava a noite com uma mulher num castelo da Alemanha Oriental no início dos anos 70, quando foi surpreendido por um estrondo. No começo, ele pensou que tinha sido descoberto com a namorada por agentes de segurança. Afinal, a moça era casada e filha do primeiro-ministro do governo comunista alemão. Mas ao chegar na sala de onde veio o barulho, viu que o tampo de um piano havia caído. Dentro do instrumento ele encontrou as partituras da ''Canção de Dachau''. A partir da descoberta, o jovem compositor - que se tornaria depois uma referência da música contemporânea - criou ''Dachau Nunca Mais'', reunindo 23 variações sobre o tema da canção composta por Zipper. ''Dachau Nunca Mais'' foi exaustivamente tocada na Europa em 1989, para comemorar a queda do Muro de Berlim.
Desde a descoberta das partituras dentro do velho piano, Willi começou a procurar Herbert Zipper pelo mundo, investigando pistas na China, nas Filipinas e nos Estados Unidos. Depois da guerra ninguém sabia do paradeiro do maestro, que saíra da Europa para trabalhar em outros países. Depois de uma busca incansável empreendida por Willi, os compositores viriam a se encontrar uma única vez em Los Angeles, em 1988. Um encontro emocionado de dois músicos que até então não se conheciam, mas tinham em comum a criação compartilhada.
Logo depois do encontro com Zipper, Willi fez algumas visitas ao Brasil, chegando em Campinas (SP) no fim dos anos 80. Suas visitas deviam-se ao relacionamento amoroso que mantinha com uma pianista brasileira, com quem teve um filho, Davi. Em Campinas, nas longas conversas que travou com Paulo San Martim e Paulo Cardoso, Willi - então um compositor já consagrado que viria a morrer em 1991 - regava com vodka os relatos não-lineares que deram origem à obra que será lançada hoje em Londrina.
Do bate-papo nos bares até a conclusão do livro, os autores debruçaram-se sobre documentos que avalizam a incrível trajetória da ''Canção de Dachau'', uma peça libertária que, através de uma série de coincidências, também pode ser considerada uma sobrevivente de um dos períodos mais duros da história da humanidade. Esta canção - uma espécie de milagre da arte da resistência - será ouvida hoje durante o lançamento do livro, num recital do pianista Bebeto Von Buettner (leia texto nesta página). Ele também inclui no repertório músicas de Willi Zobl que, no fim da vida, compôs uma ópera cuja abertura é um samba sincopado, uma homenagem à Iracema, seu ''amor brasileiro''. Uma autêntica miscigenação musical.
Lançamento do livro ''A Canção de Dachau'', de Paulo San Martin e Paulo Cardoso, e recital do pianista Bebeto Von Buettner. Hoje, às 20 horas no Teatro Zaqueu de Melo, em Londrina. O livro estará à venda por R$ 17,00.

mockup