Cesar Augusto


Celso Pacheco/Divulgação


As crianças do União da Vitória se divertem e se redescobrem fazendo teatro. Na foto de baixo, o educador social Sílvio Ribeiro, autor do projeto

O teatro pode ser o agente transformador em situações de risco. Pelo menos, é isso que acredita o educador social londrinense Sílvio Ribeiro. Há três anos, ele desenvolve um projeto voluntário junto com a comunidade do União da Vitória, um dos bairros mais carentes e estigmatizados de Londrina. Todos os sábados à tarde, religiosamente, Ribeiro e o ator Marcos Martins - que se juntou ao projeto há um ano - dão aulas de teatro para cerca de 15 crianças em uma sala cedida pela escola municipal do bairro.
A iniciativa começou durante o programa Londrina Linda da administração passada. ‘‘Um grupo de moradores pediu à Secretaria de Ação Social aulas de teatro, que entrou em contato comigo’’ - conta. No começo, Ribeiro ia de casa em casa, convidando os moradores para participar. Com eles, montou uma peça, ‘‘Viagens’’, baseada numa roteirização que fez sobre relatos dos participantes. ‘‘Muitos não sabiam ler, então fizemos um trabalho sem texto, marcado pela improvisação’’ - diz. A peça foi apresentada em vários pontos da cidade.
Sem textoMas apareceu um problema. Três meses depois de iniciado o projeto, a Prefeitura retirou o apoio financeiro que dava. Para não parar, Ribeiro transferiu as aulas para as tardes de sábado, o que afastou a maioria dos adultos. Sobraram as crianças. ‘‘Elas vinham acompanhando os pais e se divertiam muito com aquilo que estavam vendo. Começaram a pedir para participar’’ - explica. O grupo infantil já atua há dois anos.
Até agora, o educador tem trabalhado com a linguagem teatral, utilizando o mesmo método que usa com os adultos, sem texto escrito. ‘‘No grupo poucas crianças são alfabetizadas e mesmo as que são, lêem muito mal. Agora estou iniciando um programa de leituras para estimulá-los’’ - diz. Para ele, porém, os benefícios que o teatro está trazendo são muitos. ‘‘O teatro não é uma coisa palpável como uma cesta básica ou encaminhamento para emprego. Mas a gente percebe que eles estão se autovalorizando porque conseguiram um pouco de diversão e atenção. No começo, elas achavam que teatro tinha que ter violência e morte, porque esta é a realidade que vivem. Agora estão descobrindo que a vida não é só isto. Tanto que crianças que tinham saído da escola voltaram a estudar’’ - afirma.
Estigma dificulta Ribeiro inscreveu o projeto na Lei Municipal de Incentivos Fiscais mas não conseguiu nada. ‘‘As instituições esperam que, no primeiro dia, as crianças já estejam bonitinhas, quietinhas e arrumadinhas num canto. E não é assim que funciona. É preciso paciência e respeito pelo ritmo das crianças’’ - critica. No caso dos garotos do União da Vitória, a paciência deve ser redobrada. ‘‘Eles vivem em situação de risco, sentem a violência na própria pele. Não dá para ter resultados a curto prazo’’ - afirma.
O estigma de bairro violento até dificulta o trabalho do educador. ‘‘Eu procuro levar os garotos para assistir aos espetáculos, mas até para conseguir transporte é difícil. Mesmo pagando, as pessoas não querem vir buscá-los aqui’’ - conta.
Apesar de todas as dificuldades e mesmo pagando para trabalhar, Sílvio não se arrepende: ‘‘O teatro está dando uma chance para esta criançada’’.(T.E)

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