Uma biografia completa
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de janeiro de 1998
Mauro Dias 
Agência Estado
Requinte: nos anos 70, incumbido de escrever o roteiro para um programa televisivo que teria Tom Jobim como tema, o jornalista Sérgio Cabral sentava-se com o maestro, no restaurante Antonios ou na Churrascaria Carreta, e deixava durante longas tardes de bebericagem a conversa correr solta. E deixava o gravador ligado, sem o conhecimento do compositor, pianista, violonista, flautista, arranjador, poeta, frasista impagável, filósofo humanista amador, galanteador irresistível, o mais carioca dos homens do mundo, especialista em pássaros, matas, motores, drinques, culinária e quanto mais se queira.
Depois de quase 30 anos escrevendo sobre Tom em jornais, revistas, capas de discos, fascículos, e nesse tempo todo convivendo com o maestro e sendo seu amigo, Sérgio Cabral era indiscutivelmente o biógrafo ideal. Escreveu, antes, excelentes biografias - de Ari Barroso, Elisete Cardoso, Almirante, Pixinguinha -, além de, entre outras obras, lançar uma monumental história das escolas de samba do Rio de Janeiro. Sérgio já tinha até mesmo o esboço do novo trabalho traçado. O editor Almir Chediak convenceu-o a pôr mãos à obra pouco depois da morte de Tom, no dia 8 de dezembro de 1994.
Antônio Carlos Jobim - Uma Biografia (Lumiar, 545 páginas, preço sugerido de R$ 35,00) chegou às livrarias passados três anos da morte do biografado. Tem as qualidades que se espera de um trabalho de Sérgio Cabral, do texto fluente e bem-humorado ao cuidado ético que sempre o distinguiu: ele só ultrapassa o portal da casa de Tom quando o que está acontecendo lá dentro é fundamental para a música.
Embora não esconda o perfil de galanteador do maestro, não desce a detalhes. Apenas duas de suas conquistas -e uma tentativa frustrada - extraconjugais ganham nome: duas mulheres norte-americanas (em duas histórias importantes para que se entenda o estado de espírito de Tom naqueles momentos) e uma brasileira, a Lygia inspiradora da canção a que deu nome e que depois se casou com o escritor Fernando Sabino.
Conversador Discreto com os assuntos íntimos, Sérgio Cabral não poupou detalhes sobre o homem Tom Jobim, uma personalidade curiosíssima, de humor carregado de nonsense, muitas manias e reações incomuns. Tom, sabe quem o conheceu, era um grande conversador (como seu biógrafo) e criador de frases. Sérgio foi generoso nesses particulares, procurando dividir com o leitor o prazer que a companhia do maestro proporcionava a seus pares.
Por outro lado, Uma Biografia peca pelo excesso de erros, que se pode atribuir à revisão, explicáveis, talvez (nunca justificáveis), pela necessidade de fazer o livro chegar às lojas no aniversário da morte de Tom. Um livro que deveria virar referência não pode chamar o poeta Paulo Emílio da Costa Leite de Raul Emílio. Não será de referência uma obra em que Waltel Blanco surja como Walter Branco, Eliane Elias como Eliana Elias, John Hendricks como John Jendricks. Mais grave: a cantora Lenita Bruno é o tempo todo chamada de Nelita Bruno.
Tom Jobim dizia que os norte-americanos não entendiam o seu nome. Chamavam-no de Mr. Joe Bean, algo como Seu Zé Feijão. Era uma piada, e o livro perde-a ao tentar contá-la. Em vez de Joe Bean, aparece escrito Joe Bim, que não quer dizer nada. Foi-se o trocadilho que o maestro adorava repetir.
Uma segunda edição corrigirá os erros, espera-se. Uma boa revisão evitaria-os e evitaria os senões à obra, de resto, muito boa (um índice remissivo deveria ser acrescentado). Sérgio Cabral teve acesso ao arquivo pessoal (de documentos, textos e fotos) de Aloísio de Oliveira e com ele enriqueceu de informações e imagens o livro; e ainda ao arquivo da família Jobim. Entrevistou amigos de infância e adolescência de Tom, companheiros de bar, gente que esteve com ele toda a vida; recorreu a jornais e revistas para precisar cada acontecimento.
IrônicoO biógrafo selecionou várias frases do músico a quem Frank Sinatra chamou, do palco do Carnegie Hall, de o melhor compositor do mundo - Tom estava na platéia, com a família. Há ditos de aparente nonsense, na verdade reveladores da verve irônica: Sempre fui melhor de vista do que de ouvido. Como músico, talvez não devesse fazer essa revelação, mas é um fato: sempre vejo bichos e plantas que escapam aos mais jovens.
Uma Biografia esmiúça vida e obra de Antônio Carlos Jobim, sem abrir espaço para futricas. Menospreza - como devem ser menosprezados - seus detratores, os que o chamavam de plagiário ou o acusavam de americanizar o samba. O assunto vem à baila quando incomoda o compositor e provoca algum tipo de reação. Revela que um exercício de composição do tempo em que era aluno de Lúcia Branco se transformou na belíssima valsa Imagina, que Chico Buarque letrou nos anos 70. E rende as necessárias homenagens ao padrasto de Tom, Celso Frota Pessoa, que o incentivou na música e o salvou nas inúmeras crises financeiras.
O livro exaure o que há de importante para saber sobre Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim - inclusive que o de Almeida não consta de sua certidão de batismo. Resta que sejam corrigidos os erros editoriais: com quantidade e qualidade de informações, o livro é obra obrigatória para quem quer saber da música brasileira.


