Uma biblioteca ao ar livre
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terça-feira, 19 de outubro de 2010
Ana Paula Nascimento<br>Reportagem Local 
Houve uma época em que a tradição oral era a forma de se comunicar mais eficiente entre os povos. Sem o domínio da escrita - o que ainda acontece em algumas etnias -, o que se contava de pai para filho era o mais valorizado. Mas aí vieram os livros, hoje os grandes ''detentores'' do conhecimento e uma revolução das letras aconteceu.
Para aproximar os livros das nossas crianças - mas sem despezar a tradição oral - desde o ano passado o projeto Biblioteca Viva Itinerante, com apoio do Promic, tem unido o resgate da cultura popular ao acesso aos livros. Em praças públicas e escolas é hora de trocar livros, brincar de roda, de pé de lata, construir brinquedos de sucatas e desvendar um lado da infância que muitas vezes acaba adormecido.
No último dia 5, foi a vez de 380 crianças atendidas pelo projeto Folha Cidadania participarem de parte dessas atividades. Alunos de Cambé, Londrina, Jataizinho e Tamarana foram recepcionados pelo palhaço Coisa Fina e pela Maria Flor - brincante que teve o seu nome escolhido na hora por eles. Aos arredores da antiga Casa do Papai Noel, onde hoje funciona a Patrulha Escolar Comunitária, foi realizada uma manhã e tarde festivas dedicadas aos livros, sendo parte deles doados pela Folha de Londrina e pela Livraria Curitiba, dentro do projeto ''Brincar é Coisa Séria''.
Com a proposta de fazer troca de livros, quem chegou com um exemplar em mãos saiu com um novo de sua própria escolha, dispostos nas prateleiras. Quem veio de mãos vazias, participou de algumas brincadeiras, como parlendas e contação de piadas, que tiveram como prêmios a doação de livros.
No palco improvisado, usando mamulengos e um livro gigante, à sombra de uma árvore frondosa, a oportunidade de ''viajar'' através da contação de uma história de origem africana - ''O Odu Obará'' -, um reconto de Reginaldo Prandi. Antes de mau agouro, Obará é o personagem em que tudo acontece de errado em sua vida até que é abençoado com abóboras recheadas de tesouros. Na mitologia afro transforma-se no odu dos finais felizes surpreendentes, para a alegria geral dos alunos deitados em tapetes coloridos no gramado e sentados em pufes.
''No nosso trabalho procuramos brincar com as palavras e a imaginação das crianças. Despertar isso nas crianças através de um contexto diferente'', comenta Daniela Fioruci, a Maria Flor, enfatizando que a escolha da história não foi aleatória, valorizando a determinação curricular do estudo da cultura afro-brasileira.
Sobre o processo de troca de livros, ela relata que sutilmente as crianças vão observando a forma como os livros usados chegam às suas mãos e o quanto a conservação é importante, preocupando-se em passar para frente exemplares bem conservados.
A figura do palhaço também é uma diversão à parte. Representando o oposto, aquele em que se é permitido as mais diversas contravenções, a dualidade do certo/errado, do opressor/oprimido, o Coisa Fina acaba por extravazar muitos dos sentimentos das crianças, que acabam tendo uma identificação direta. ''Tem crianças que nunca viram um palhaço de perto ou a referência que têm são aqueles que vendem coisas nas ruas. Aqui o palhaço lê livros junto com elas'', aponta.
Buscando nesse trabalho cumprir o papel do mediador, Daniela diz que costumam interagir com as crianças na hora da escolha dos livros, ver se a leitura é adequada para determinada idade e mostrar o livro como um objeto de prazer. ''É importante que a criança não tenha uma relação de obrigação com o livro, que ela saiba escolher o que gosta de ler'', destaca.
Acostumada a levar esse trabalho nas regiões menos privilegiadas da cidade, ela lembra que já chegou a receber crianças com sacolas de jornais na hora da troca por serem os únicos objetos de leitura que tiveram acesso. Já o nível de leitura das crianças também é variado, o que torna o trabalho ainda mais estimulante e necessário.


