Uma bela voz a serviço da MPB
A cantora Carol
Saboya faz sua
estréia em disco
solo com o excelente
Dança da Voz
Antônio Mariano Júnior
Ricardo LopesCarol Saboya: ótima técnica e voz cristalina
Poderia ela, assim como caminha sua geração, descambar para o pop e colocar sua bela voz a serviço da parafernália eletrônica. Mas,
bem-educada e influenciada musicalmente que foi, Carol Saboya resolveu trilhar pelo caminho da coerência. Ou seja, da MPB. Não dessa MPB banal, manjada, fast food devorada atualmente por rádios e paladares suspeitos. Nada disso, nada disso! Em seu primeiro disco, Dança da Voz (Lumiar), Carol Saboya, 23 anos, optou pela sofisticação ampla, geral e irrestrita. Com isso, o Brasil ganha oficialmente, a partir de agora, uma nova cantora que de cara apresenta um trabalho personalíssimo.
Ao todo, treze faixas com a nova e a velha guarda de compositores. Todos, no entanto, receberam fino trato através dos arranjos de outra fera: o pianista Antonio Adolfo, pai de Carol. Na cozinha, um punhado de músicos bambas como Marco Pereira, Adriano Giffoni, Jurim Moreira, Jorge Helder, Cristóvão Bastos, entre outros. A produção é assinada por Almir Chediak, o mago dos songbooks.
Já na primeira faixa, Samba Escrachado (Lenine e Zé Rocha), Carol entra com tudo num samba quase inclinado ao jazz. Aliás, o leve sotaque jazzístico permeia essa ou aquela faixa do disco. Mas verdadeiras delícias ainda estão por vir. E começa com a regravação de Festa de Rua (Dorival Caymmi) em que a cantora demonstra bossa e suingue e se dá ao luxo de brincar levemente com o compasso.
A faixa seguinte, Escorregando (de Ernesto Nazareth, letrada por Hermínio Bello de Carvalho) é um solfejo só na voz de Carol Saboya. É nessa música que a cantora encontra o equilíbrio perfeito entre técnica e brejeirice. É um dos pontos altos do disco. Outras maravilhas ficam a cargo de Dinorah (Benedito Lacerda e Darci de Oliveira) e Cabeça Chata (Sergio Santos e Paulo César Pinheiro).
Dos novos compositores, o destaque fica por conta de Quatro Cantos (Kiko Furtado e Daniel Gonzaga). Enfim, o repertório de Dança das Vozes parece ter sido escolhido a dedo para Carol Saboya mostrar que é dona de uma voz cristalina - ela é soprano. Sua voz captura notas com exatidão. É um instrumento mesmo que, às vezes, soe um tanto quanto técnico, preciso demais.
O bacana dessa história toda é que tirando a tensão característica que ronda todos os primeiros discos, Carol Saboya consegue dar conta do recado de maneira vigorosa. Agora, legal mesmo é saber que por trás da marca da sofisticação que envolve todo o disco, Dança da Voz não é um produto inacessível ou elitista. Em suma: simples não é, mas dizer que se trata de um trabalho difícil é no mínimo um equívoco. Dança das Vozes, em outras palavras, é um disco para bom entendedor. E para bom entendedor...





