UMA BATALHA PERDIDA EM DOBRO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 31 de maio de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha 2 
Na verdade Pearl Harbor, megalançamento nacional em amplo circuito de 155 telas brasileiras, a partir de hoje , é um caso típico de três em um. Ao longo de 183 minutos, o espectador assiste a três filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. O primeiro é um romance barato, recheado de conversa fiada de risível acabamento. O segundo é pouca coisa além de questionáveis penduricalhos históricos em torno do fato central, e o terceiro é o próprio fato central o ataque japonês à base aérea de Pearl Harbor, no Havaí, na manhã de 7 de dezembro de 1941 . Este terço final, cerca de 40 minutos de bombas explodindo, aviões em feroz bombardeio, fogo, fumaça e morte, é o menos sofrível. O problema é suportar antes os outros dois.
A rala historinha romântica que edulcora boa parte do filme é nutrida pelo indefectível triângulo amoroso. Rafe McCawley (Ben Affleck) e Danny Walker (Josh Hartnett), segundo os ensinamentos do prólogo, são amigos inseparáveis desde a infância no Tennessee. O sonho compartilhado: voar. A chance vem em 1941, quando são treinados em estilo Top Gun. Mas eles se separam. Rafe conhece a enfermeira Evelyn (Kate Beckinsale), se apaixonam mas o aviador segue outro rumo. Evelyn e Danny acabam se conhecendo em Pearl Harbor. Quem chega à base é Rafe, e daí...
Diante de todas suas épicas pretensões (como se épico fosse uma questão de tempo de duração esticado, música inchada de acordes desconfortantes e pomposos pronunciamentos over), o filme acaba funcionando apenas e de maneira muito miúda como ação, uma ruidosa sinfonia de luzes e sons e cores estremecida por um raivoso computador operado pelo diretor Michael Bay, o mago do videoclipe feérico (A Rocha, Armaggedon). De qualquer maneira, depois de hora e pico de dose maciça de dúbio romantismo, a escalada nipônica no horizonte surge como um alívio. Pelo menos os decibéis Dolby da descarga aérea e dos torpedos colocam a opressiva partitura de Hans Zimmer na retaguarda e silenciam as pérolas colhidas com frequência nos diálogos do roteirista Randall Wallace.
Ben Affleck, a esta altura candidato quase imbatível a ator-fake do ano, divide com Kate Beckinsale linhas dignas de antologia. Como estas jóias trocadas, perto do fim: Você é tão bonita que dói. Ela responde: É o seu nariz que dói(ele está com o nariz quebrado). Ele liquida: Não, é o meu coração que dói. A alguns coadjuvantes é dada a oportunidade de furtivos segundos de boa interpretação. Mas o roteiro e a direção impacientes, volátil de Michael Bay não fornece tempo ou espaço para que os personagens amadureçam e deixem de ser apenas rabiscos.
Nesta batalha cinematográfica tão perdulária quanto perdida, ficam as muitas saudades de um clássico quase cinquentão como A Um Passo da Eternidade, que Fred Zinneman realizou em 53 inspirado no episódio Pearl Harbor. E até o controvertido e à época muito espancado Tora, Tora, Tora, de Richard Fleischer, vira um cult instantâneo, trinta anos depois. Em VHS ou DVD, o vídeo faz justiça.


