Na verdade ‘‘Pearl Harbor’’, megalançamento nacional em amplo circuito de 155 telas brasileiras, a partir de hoje , é um caso típico de três em um. Ao longo de 183 minutos, o espectador assiste a três filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. O primeiro é um romance barato, recheado de conversa fiada de risível acabamento. O segundo é pouca coisa além de questionáveis penduricalhos históricos em torno do fato central, e o terceiro é o próprio fato central – o ataque japonês à base aérea de Pearl Harbor, no Havaí, na manhã de 7 de dezembro de 1941 . Este terço final, cerca de 40 minutos de bombas explodindo, aviões em feroz bombardeio, fogo, fumaça e morte, é o menos sofrível. O problema é suportar antes os outros dois.
A rala historinha romântica que edulcora boa parte do filme é nutrida pelo indefectível triângulo amoroso. Rafe McCawley (Ben Affleck) e Danny Walker (Josh Hartnett), segundo os ensinamentos do prólogo, são amigos inseparáveis desde a infância no Tennessee. O sonho compartilhado: voar. A chance vem em 1941, quando são treinados em estilo ‘‘Top Gun’’. Mas eles se separam. Rafe conhece a enfermeira Evelyn (Kate Beckinsale), se apaixonam mas o aviador segue outro rumo. Evelyn e Danny acabam se conhecendo em Pearl Harbor. Quem chega à base é Rafe, e daí...
Diante de todas suas épicas pretensões (como se ‘‘épico’’ fosse uma questão de tempo de duração esticado, música inchada de acordes desconfortantes e pomposos pronunciamentos ‘‘over’’), o filme acaba funcionando apenas e de maneira muito miúda como ação, uma ruidosa sinfonia de luzes e sons e cores estremecida por um raivoso computador operado pelo diretor Michael Bay, o mago do videoclipe feérico (‘‘A Rocha’’, ‘‘Armaggedon’’). De qualquer maneira, depois de hora e pico de dose maciça de dúbio romantismo, a escalada nipônica no horizonte surge como um alívio. Pelo menos os decibéis Dolby da descarga aérea e dos torpedos colocam a opressiva partitura de Hans Zimmer na retaguarda e silenciam as pérolas colhidas com frequência nos diálogos do roteirista Randall Wallace.
Ben Affleck, a esta altura candidato quase imbatível a ator-fake do ano, divide com Kate Beckinsale linhas dignas de antologia. Como estas jóias trocadas, perto do fim: ‘‘Você é tão bonita que dói’’. Ela responde: ‘‘É o seu nariz que dói’’(ele está com o nariz quebrado). Ele liquida: ‘‘Não, é o meu coração que dói’’. A alguns coadjuvantes é dada a oportunidade de furtivos segundos de boa interpretação. Mas o roteiro e a direção impacientes, volátil de Michael Bay não fornece tempo ou espaço para que os personagens amadureçam e deixem de ser apenas rabiscos.
Nesta batalha cinematográfica tão perdulária quanto perdida, ficam as muitas saudades de um clássico quase cinquentão como ‘‘A Um Passo da Eternidade’’, que Fred Zinneman realizou em 53 inspirado no episódio Pearl Harbor. E até o controvertido e à época muito espancado ‘‘Tora, Tora, Tora’’, de Richard Fleischer, vira um cult instantâneo, trinta anos depois. Em VHS ou DVD, o vídeo faz justiça.

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