Uma batalha de gênios
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Rafael Ceribelli <br> <br> Reportagem Local 
Popularizada pela obra do filósofo Hegel, a definição de ''Zeitgeist'' (que significa, em alemão, ''espírito do tempo'') é como a de um sopro fantasmagórico, um vendaval que condensa os conflitos e questionamentos de uma certa geração de pensadores. No final do séc. XIX e início do séc. XX, a humanidade, agora munida do conhecimento científico, tentava se redescobrir (e se 'iluminar') através da análise racional da sociedade e do indivíduo, separando e estudando - de maneira fundamentalmente cartesiana - todas as coisas, inclusive o seu próprio comportamento.
Em meio a este panorama científico progressista, o filme ''Um Método Perigoso'' - estreia desta semana na programação do Cine Com-Tour/UEL - ilustra uma extraordinária história real, que envolve uma das mais importantes querelas na história da psicologia. De um lado, o jovem e promissor Carl Gustav Jung (Michael Fassbender); de outro, o renomado Sigmund Freud (Viggo Mortensen), pai da psicanálise e responsável por fundamentar os princípios de uma nova maneira em enxergar a psique humana. Servindo como contraponto ao conflito ideológico que começa, gradualmente, a surgir entre mestre e discípulo, conhecemos a bela e perturbada Sabina Spielrein (Keira Knightley).
Considerada ''sem salvação'' pela sua família, Sabina é internada na clínica de Jung para um tratamento intensivo de suas tendências suicidas, que também envolvem um quadro complicado de esquizofrenia. Observando as condições da paciente, Jung percebe que ela possui as condições ideais para ele começar a experimentar o processo de ''cura pela fala''. O método, aplicado na época de forma inédita, tem o objetivo de fazer a própria paciente alcançar - através de uma profunda reflexão sobre seus traumas - uma catarse libertadora, que abre caminho para a cura da condição maníaco-depressiva.
Deparando-se com um problema maior (e mais interessante) do que imaginava em princípio, Jung busca aconselhamento de Freud, que por sua vez justifica as condições da paciente dentro de sua teoria psicanalítica. Em meio a seus estudos sobre a paciente, Jung também conhece o paciente Otto Gross (Vincent Cassel), um maníaco que, através de uma argumentação niilista, começa a abalar as próprias estruturas morais do psicanalista.
Dirigido com segurança por David Cronenberg, o filme (baseado em textos que já deram origem a um livro e uma peça de teatro) é fundamentado em seus diálogos. Sem ação, a trama se sustenta toda graças à interpretação competente de Mortensen e Fassbender, e de uma Knightley que consegue - através de uma personagem inquieta e pertubadora - convencer o espectador do tamanho do abismo que sua doença proporciona. Envolvente, o filme ganha força principalmente nos momentos em que presenciamos os diálogos entre os dois protagonistas; expoentes da psicanálise que, mesmo impassíveis por fora, estavam sempre se digladiando com ideias, e questionando a essência de sua própria condição humana.
As fascinantes divergências entre Jung e Freud reforçam um intrigante debate, que envolve os contrastes mais obscuros da natureza humana. No fim, ''Um Método Perigoso'' se arrisca em ser considerado muito 'cerebral' para a maioria do público - que pode achar o ritmo do filme excessivamente lento - mas a experiência na tela é potencializada se o espectador conhecer um pouco do momento histórico retratado, e entender a verdadeira importância que essa discussão representou no curso da humanidade. O ''Zeitgeist'' daquela época já passou, mas seus principais fantasmas ainda assombram o pensamento moderno.


