'Uma Batalha Após a Outra' ou combater o bom combate
Filme que estreia nesta quinta-feira (25), incluindo as salas de Londrina, é uma sátira explosiva sobre o autoritarismo dos EUA
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de setembro de 2025
Filme que estreia nesta quinta-feira (25), incluindo as salas de Londrina, é uma sátira explosiva sobre o autoritarismo dos EUA
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial sobre a FOLHA 

Para Paul Thomas Anderson, um dos poucos cineastas do novo milênio com uma formação intelectual muito acima do meramente aceitável, cada filme tem seu tempo; e, nesse sentido, a estreia mundial nesta quinta-feira (5), de “Uma Batalha Após a Outra/One Battle After Another” (2025), seu maravilhoso retorno aos ringues após quatro anos de silêncio, constitui um acontecimento porque, embora não se afaste de seu formato favorito, o épico, está sem dúvida mais próximo do modelo grotesco de tragicomédia negra de “Boogie Nights” (1997) e “Magnólia” (1999), um enclave quase esquecido, do que da seriedade (solene ?) de seu díptico kubrickiano, os notáveis “There Will Be Blood” (2007) e “The Master” (2012).
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O roteiro de PTA é baseado no quarto romance de Thomas Pynchon, (“Vineland”, obra de 1990, sobre os movimentos radicais dos anos sessenta), um dos papas da literatura pós-moderna americana com um leque de influências que inclui desde Cervantes, Borges e Umberto Eco até Joyce e Burroughs. Ao que deve-se acrescentar o detalhe de que o escritor – hoje supostamente com 88 anos – é o equivalente a J.D. Salinger (o autor do mitológico “O Apanhador no Campo de Centeio (1951), porque ambos ganharam fama de reclusos convictos ao longo das décadas, sempre se mantendo longe dos olhos do público, apesar do bom nível de vendas e do prestígio obtido nos mundos interconectados da literatura e do conhecimento acadêmico.
Pynchon pertence à geração de Dom DeLillo, Cormac McCarthy e Philip Roth, todos americanos como ele, e caracteriza-se por uma prosa intrincada e satírica aprovada tanto pela cultura de massa como pela arte refinada. Mas o cinema não o tinha levado em conta até o aparecimento de “Vício Inerente” (2014), um surpreendente tropeço do mesmo Paul Thomas Anderson que deixou o filme ser dominado pelo sempre excêntrico Joaquin Phoenix. Além disso, PTA foi demasiado fiel a este sétimo romance de Pynchon, a ponto de se auto-sabotar, talvez por não compreender que a literatura e a sétima arte são linguagens diferentes que requerem algum tipo de reavaliação retórica devido à certeza de que o que funciona na página pode não funcionar no tela, e vice-versa.
Assista ao trailer:
OUTROS MUNDOS
Paul Thomas Anderson nos apresenta agora seu trabalho mais ambicioso, estrelado por um brilhante Leonardo DiCaprio. O diretor tem particular obsessão por universos em extinção e seus protagonistas, como o cinema pornô pré-VHS (“Boogie Nights”), o artesanato da alta-costura (“Trama Fantasma”), o amor adolescente (“Pizza de Alcaçuz”) ou os Estados Unidos atolados em petróleo do início do século XX (“Sangue Negro”).
“Uma Batalha Após a Outra” nos fala de outro mundo, um mundo que, aparentemente e infelizmente, está mais ameaçado do que nunca. O da insurreição. Um modo de vida, como Paul Thomas Anderson explica através de seus olhos, como qualquer outro. Com seus riscos, sua violência, mas também com suas famílias e amigos, suas alegrias e tristezas. Por que, como podemos deixar de perceber algo se não lhe damos um rosto?
Este é, talvez, o maior superpoder de PTA: encontrar atores de alto nível para dar papéis que ele respeita. Como o Sensei, vivido por Benicio del Toro; a Willa, de Chase Infinity, e a Perfídia, de Teyana Taylor: eles já fazem parte da herança insuperável do cinema moderno. O Bob Ferguson, de Leonardo DiCaprio, também é figura constante, embora este, ainda que brilhante, apresente um deslize: nunca uma estrela esteve tão presente em projeto do diretor. Isto dificulta um pouco a imersão e, talvez para fazer jus ao legado de seu protagonista, este é seu filme mais ambicioso.
MUITA AÇÃO
Repleto de ação, filmado em VistaVision/IMAX e com sua duração habitual de mais de duas horas e meia, o espectador pode se sentir mais atordoado do que, digamos, durante os acordes nostálgicos de “Pizza de Alcaçuz”. No entanto, não é uma sensação duradoura, mas sim de perplexidade diante da premissa de um truque de mágica, que acaba sendo executado com precisão e sob aplausos. Feroz e implacável, “Uma Batalha...” brilha tanto como um épico de ação incendiário quanto como um drama familiar terno, repleto de humor, convicção e espírito revolucionário. Poucos filmes deste primeiro quarto de século parecem tão vitais, tão de tirar o fôlego em essência e propositos e desígnios.
Em sua teoria da conspiração, seu realismo mágico, seu reflexo do fascismo americano imprevisível e vagabundo, burocrático e infeliz, “Uma Batalha Após a Outra” inevitavelmente lembra os irmãos Cohen de “O Grande Lebowski”. Uma consonância feliz, porque, assim como ele, PTA nos dá esperança. Não porque acreditemos que ele tenha alguma chance a longo prazo contra o mal do sistema. Mas porque há alguém por aí que se permite passar uma manhã de terça-feira ouvindo Creedence Clearwater Revival ou Steely Dan. E, convenhamos, se isso não é ser revolucionário...




