Uma banda para moleques furiosos
Nelson Sato
Todo moleque que descobre o punk, só chega ao The Clash depois de se encharcar com Ramones e Sex Pistols. É quase uma iniciação musical, que passa pelas lições dos três acordes e segue adiante até desembocar num furioso coquetel de ritmos.
The Clash Tribute - Burning London (Sony Music), disco que chegou esta semana às lojas do País, é uma homenagem à banda que destoou de suas contemporâneas para antecipar tendências futuras. O CD abre com o grupo de ska pop No Doubt e fecha com uma parceria entre o DJ e produtor Moby e a cantora Heather Nova.
Entre uma e outra faixa, as reinterpretações trazem nomes famosos e uns gatos pingados ainda desconhecidos do grande público. A coletânea soa irregular, o que é regra nesse gênero de disco. Como não poderia deixar de constar, a banda Rancid se faz presente com Cheat. Os últimos moicanos, como são chamados pela imprensa, são considerados os mais fiéis epígonos do The Clash.
Ao longo das faixas, as versões mais convincentes aparecem no final. O ponto alto é a abordagem melodiosa que o Afghan Whigs conferiu a Lost in the Supermarket, lembrando o U2 dos primeiros discos. O Cracker não fica atrás, apresentando um folk de saloon em sua cover de White Riot.
Também na praia do folk, as Indigo Girls mandam bem em Clampdown, com acompanhamento do percussionista brasileiro Paulinho da Costa. O rap comparece na regravação de Ice Cube and Mack 10 para o grande hit Shoud I Stay Or Should I Go. O 311 revê com eficiência White Man in Hammersmith Palais. O trio Silverchair, por fim, submete Londons Burning à releitura mais barulhenta do tributo com os vocais remetendo aos blablablás cuspidos por Johnny Rotten, à frente dos Sex Pistols. Vale notar que o ecletismo dos convidados ilustra a própria variedade sonora legada pela banda homenageada, que nunca se reduziu aos clichês do rock preferindo mesclá-lo ao reggae, funk, dub e rap.
Mas além do hibridismo musical, o The Clash destacou-se também pela atitude militante. Há quem garanta que o primeiro rap politizado da história foi The Magnificent Seven, do álbum triplo Sandinista!, gravado pelo The Clash em 1980. Quem vai duvidar? Afinal de contas, desde seus primórdios a banda postulou o engajamento nas letras, com o vocalista e guitarrista Joe Strummer sempre declarando que sua intenção era usar a música para passar mensagens de protesto.
Ele fundou o The Clash em 1976, ano do estopim punk. A seu lado estavam Mick Jones, Paul Simonon e Terry Crimes (substituído por Topper Headon). Com essa formação clássica, a banda lançou o último disco em 1982. Combat Rock foi o maior sucesso comercial da banda, puxado por hits como Rock the Casbah e Should I Stay or Should I Go. Vendeu 3 milhões de cópias.
Strummer ainda tentou manter o grupo ao lado de Simonon. Gravaram o álbum Cut the Crap com mais três músicos recrutados às pressas e quebraram a cara. Não é, obviamente, o trabalho mais recomendável da banda. Esse próprio CD-tributo, que está chegando às lojas brasileiras esta semana, é uma bobagem que só serve para curiosos (já escolados) compararem as versões com as gravações originais.
Para quem está descobrindo só agora o The Clash, convém vasculhar sua ficha fonográfica e cair direto na fonte.Chega ao Brasil The Clash Tribute - Burning London, disco que homenageia o grupo precursor do punk inglês
ReproduçãoThe Clash: variedade rítmica e letras engajadasReproduçãoDisco traz nomes como Moby, Might Mighty Bosstones e Third Eye BlindReproduçãoRancid: epígonos presentes na coletâneaReproduçãoSilverchair: versão mais barulhenta





