São Paulo - Decidir o próprio destino. Parar na cidade que quiser, o tempo que for necessário. Adiar a ida, antecipar a volta, reduzir gastos. As vantagens de viajar de carro são muitas. Mas os preparativos que envolvem uma longa jornada também. O planejamento deve começar com um bom mapa. É melhor confiar mais nele do que nas placas de sinalização, que muitas vezes são confusas. Conferir as rotas disponíveis, considerar trechos de serra, rodovias precárias e, se o percurso incluir trilhas, buscar informações sobre o trajeto antes de percorrê-lo é imprescindível.
Há um mês, quatro amigos de faculdade decidiram pedir demissão dos empregos, comprar um carro e sair pela América do Sul. João Costa, Diogo Sinhoroto, Ricardo Diniz e Pedro Tavares, todos em torno dos 22 anos, queriam fazer uma viagem juntos. João pensou na Europa, mas ficaria muito caro. Como já tinha no currículo uma aventura de carro com Diogo até Ushuaia, a cidade mais ao sul do continente americano, decidiram ampliar a empreitada. Mas não foi só a experiência anterior que influenciou o roteiro final. Pedro e Ricardo saíram da sessão do filme ''Diários de Motocicleta'' (2004) impressionados. ''As imagens e as aventuras dos dois (Guevara e o amigo Alberto Granado) são capazes de motivar qualquer um a fazer loucura parecida'', conta Ricardo. E Diogo completa: ''Esse mito de ganhar o mundo sobre rodas é um clássico. A questão é que a maioria das pessoas só sonha com isso. Não é fácil reunir três ou quatro pessoas com tempo disponível, dinheiro, vontade, coragem, o mesmo espírito aventureiro e graus de confiança e intimidade suficientes.''
A expedição Filhos do Sul, como é chamada, começou de brincadeira, na mesa de um bar, e hoje tem um site (www.filhosdosul.com.br), que é atualizado com fotos e notícias da viagem. A viagem começou no dia 10 de dezembro. Do Rio, partiram para o Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela. Depois de visitar Manaus, vão de barco até Belém e, de lá, de volta ao Rio. Serão quase 30 mil quilômetros em três meses.
Toda a aventura terá de custar apenas R$ 5 mil para cada um, pois os aventureiros não contam com patrocínio. ''A viagem só saiu do papel quando nos demos conta que era viável comprar um carro e vendê-lo na volta. Quando fomos a Ushuaia, gastamos só R$ 1.300 cada um'', diz João.
Pior do que viajar com pouco dinheiro são as roubadas inevitáveis de todo desafio. Diogo lembra o momento mais difícil da ida a Ushuaia. ''O problema aconteceu pouco depois de cruzarmos a fronteira do Chile com a Argentina. Era uma estrada de cascalho, longa, num deserto. Havia nevado na noite anterior e nós baixamos a calibragem dos pneus para aumentar a aderência do carro, caso ainda houvesse neve na cordilheira que separa Ushuaia do resto da Terra do Fogo'', diz. ''Não havia nenhum posto de gasolina para recalibrar. Então, seguimos assim mesmo. Furamos os dois pneus do lado direito e rodamos na estrada'', conta Diogo.
O cuidado com o automóvel foi maior desta vez. O modelo escolhido, um Ford F-1000 XK Deserter, ano 1993, ficou na revisão por duas semanas. No porta-malas, caixa de ferramentas, um estepe sobressalente, roupas para enfrentar frio e calor, duas barracas, sacos de dormir, fogareiro e comida industrializada alimentos frescos não passam na fiscalização sanitária das fronteiras. Dentro do carro, muitos CDs e mapas. O equipamento de vídeo e fotográfico será usado para a realização de um documentário, uma exposição de fotos e um livro.

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