Se você quer ser um dos quase 2 milhões de turistas que anualmente visitam o Marrocos, o mais ocidental dos países islâmicos, convém deixar todos os rótulos de lado e abrir o espírito para descobertas, algumas fantásticas, outras nem tanto. Para começar, esqueça todas as bobagens que se diz por aqui, a maior parte delas movida por puro preconceito ou ignorância. Os árabes não têm o hábito de propor a compra de mulheres ocidentais; e também não é perigoso fazer turismo em um país muçulmano (*).
O Marrocos tem cultura riquíssima, mas você não terá ali confortos reservados a um sultão, como ocorre em Aruba ou Cancún, e nem roteiros nos quais a atração são as compras, como na meca de consumo que é Miami. É um país de terceiro mundo, muito parecido com o Brasil, no qual a classe média não circula. A periferia das grandes cidades é suja e cheia de gente pobre, apesar do exotismo e das tradições milenares. Talvez por isso muitos brasileiros voltem tão decepcionados de uma aventura marroquina. É um lugar que exige muito mais que olhos para revelar seus encantos.
As principais operadoras de turismo européias exageram ao vender o Marrocos para o mundo. A inclusão de passeios em Tanger, Rabat, Casablanca e Meknes, que estão inseridas no roteiro básico, serve apenas para engrossar o roteiro e dar a ele uma falsa consistência. O Marrocos é, sobretudo, as cidades imperiais de Fes e Marrakech. É ali que o país se liberta da influência européia e mostra sua essência árabe, temperada pelas tradições milenares dos nativos berberes.
Tanger, por exemplo, não passa de um dos pontos mais próximos da Europa em continente africano. Um porto de 300 mil habitantes onde ancora o catamarã que leva uma hora para cruzar, desde a Espanha, os 14 quilômetros do Mar Mediterrâneo pelo Estreito de Gibraltar. Tem sua importância histórica, porém. Foi dali que, no ano 711, partiram as tropas de Tarik ibn Ziyad para conquistar a Espanha, então território visigodo.
A influência do domínio árabe de sete séculos pode ser visto ainda hoje na arquitetura da Andaluzia, no Sul da Espanha. Rabat, a capital política de 1,3 milhão de habitantes, ostenta apenas o palácio real de onde o rei Mohammed VI governa (cuja visita interna não é autorizada) e o mausoléu de seu avô, o herói da independência Mohammed V, que em 1956 conseguiu libertar o país do domínio francês. O mausoléu foi construído em frente à Torre Hassan, como é chamado o minarete de 44 metros da mesquita que nunca chegou a ser concluída, hoje cercada por dezenas de colunas de mármore que deveriam sustentar o templo.
(*) A viagem foi feita antes dos conflitos entre os Estados Unidos e o Afeganistão

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