Uma aventura cinematográfica
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de dezembro de 1998
Luiz Zanin Oricchio Agência Estado 
Bom para iniciantes, melhor ainda para quem já conhece alguma coisa do assunto. Nossa Aventura na Tela, do pesquisador Carlos Roberto de Souza, é uma pequena e saborosa história do cinema brasileiro, dos primórdios aos dias de hoje. Escrita com leveza, elegância, refere-se à primeira sessão de cinema no País, realizada no Rio em 8 de julho de 1896, aos primeiros fotogramas nacionais, atribuídos a Vittorio de Maio, de 1897, e chega até agora, quando um filme como Central do Brasil, de Walter Salles, quebra o longo jejum de prêmios em festivais importantes (com o Urso de Ouro em Berlim) e transforma-se em virtual candidato a um Oscar no ano que vem.
Aventura. A palavra não poderia ser mais adequada para descrever a trajetória descrita por Souza. A impressão panorâmica que se tem da história do cinema brasileiro é a de uma crise permanente, atenuada por etapas pontuais de uma estabilidade enganosa. Assim, a saga das imagens em movimento no País conheceu uma época de ouro, periodizada de 1896 a 1914, logo encerrada com a entrada maciça do filme estrangeiro.
Na primeira década do século os Estados Unidos já haviam dominado o ciclo industrial da invenção dos LumiSre e buscavam mercados emergentes para onde expandir suas vendas. A invasão de filmes americanos foi saudada como progresso na então capital da República. A palavra de ordem do momento era: O Rio americaniza-se, frase usada com sentido positivo. Como o desnível técnico era muito grande, os filmes brasileiros passaram a ser considerados meras curiosidades. A informação é útil para quem pensa que a situação atual se constitui em novidade.
Com essa dominação econômica, assinala o autor, vinha a colonização cultural. Ou seja, o espectador passa a pautar-se pelo gosto alheio, mudando o seu. Há toda uma operação auxiliar na preparação dessa mudança de gosto do público, na qual os meios de comunicação assumem um importante papel.
Essa construção de um mundo mítico passa pelas reportagens especiais pondo em relevo astros e estrelas, material publicitário disfarçado de material editorial, a fundação de fã-clubes, etc. Ou seja, a montagem de toda essa parafernália econômico-ideológica remonta às primeiras décadas do século. Não é de se admirar que funcione tão bem, até hoje. E ainda mais agora, com todas as facilidades dos meios de comunicação e também da docilidade política da última década, inédita na história do século.
Com o mercado sitiado desde cedo, o cinema brasileiro teve de aprender a ocupar espaços. Comercialmente isso se deu em algumas ocasiões, como na fase das chanchadas e do cinema industrial promovido pela Embrafilme. Na fase da Atlântida, o cinema soube aproveitar a imensa popularidade da música e dos cantores da era do rádio (Carmem e Aurora Miranda, entre outras), o Carnaval, a vocação brejeira do povo brasileiro. Enfim, eram filmes que tomavam o pulso de um ethos nacional e traduziam essa percepção para as telas. Quando isso acontece, o sucesso é certo. Na excelente frase do autor: ...o público, que até aí rira do cinema brasileiro, passa a rir com ele.
Outras tentativas industriais não foram tão férteis quanto a da Atlântida. Em São Paulo, surgiu a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, a mais empenhada tentativa de criação de um sistema industrial no País. Vinha em oposição ao que considerava o mau gosto das chanchadas e propunha um cinema sério, de qualidade. Montou-se o estúdio em São Bernardo do Campo, importaram-se equipamentos e técnicos, contrataram-se atores e atrizes.
A atividade da Vera Cruz foi muito intensa entre 1950 e 1953, produzindo 18 longas-metragens e alguns documentários. No entanto, o rendimento dos filmes não acompanhava seus custos. Faltava, sobretudo, uma estrutura adequada de distribuição e exibição, para escoar o que fosse produzido. Como essa equação não fechava, depois de três anos de atividade, a companhia faliu.
Como reação, ao cinema de estúdio da Vera Cruz, surgiu o Cinema Novo, até hoje o movimento cinematográfico brasileiro mais conhecido no exterior. Jovens diretores como Nelson Pereira dos Santos, Gláuber Rocha, Cacá Diegues, Linduarte Noronha e Paulo César Saraceni saíam para as ruas das cidades, ou iam para o sertão radiografar um país em transe, devastado por contradições sociais.
O cinema punha-se a serviço da transformação social e questionava a dominação até mesmo na linguagem. Basta ver um filme como Deus e o Diabo na Terra do Sol, liberação completa da linguagem cinematográfica de seus entraves sociais, como afirma Souza.
O livro ganha com esse tom engajado. Se em alguns momentos se lamenta a ausência de um espírito crítico mais cerrado em relação aos filmes, fica o saldo de uma visão assumidamente cortada por algumas premissas ideológicas. Dentre elas, a básica: todo país tem direito à imagem e o Brasil não é exceção. Por isso, na apreciação do tempo atual, o autor não deixa de tocar em alguns considerados tabus.
Para ele, globalização é apenas um eufemismo para o processo de americanização por que passa o mundo; as tão badaladas leis de mercado não passam de um sucedâneo social para a lei da selva, onde prevalece o mais forte. Finalmente, afirma que se medidas protecionistas não forem tomadas, o produto cultural de cada nação está condenado à desaparição.
Nossa Aventura na Tela é uma história de conteúdo engajado. Além de contemplar as diferentes fases da nossa cinematografia, fala sobre os filmes principais de sua história como Ganga Bruta, Limite ou Terra em Transe, relembra os cineastas mais importantes e os atores. É uma introdução e também uma homenagem ao cinema nacional. Cai muito bem numa época em que ele se recupera do mais recente marasmo e ajuda o aficionado a entender por que está submetido à ciclotimia dos ciclos.
Nossa Aventura na Tela - ensaio do pesquisador Carlos Roberto de Souza, Cultura Editores Associados, 182 páginas. Preço: R$ 20,00.


