Uma autêntica mesa beat de bar
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de setembro de 2001
Marcos Losnak<BR>Especial para Folha 2 
A chamada ''literatura beat'' possui um papel determinante dentro da história da literatura norte-americana. Não apenas pelas obras que produziu na década de 50, mas por sua influência em escritores de todo o mundo. Além de uma estética inovadora, desenhou uma cultura comportamental que ainda encontra eco nos dias de hoje.
A ''literatura beat'' foi tema de um debate promovido pelo grupo de teatro ''Cemitério de Automóveis'' realizado na quarta-feira no Teatro Zaqueu de Melo, dentro do projeto ''Beat Cemitério''. Um assunto arrebatador que desperta acaloradas discussões, seja entre boêmios de bar, ou entre doutores da academia.
A diferença entre um debate oficial, sério e sisudo, e um debate informal, relaxado e irreverente, está justamente na forma. E em matéria de forma, cada espectador possui um opinião pessoal. Mas o que se espera de um debate, seja ele sisudo ou irreverente, é informação.
No caso do evento ''Literatura Beat'', ocorrido dentro da programação dos 50 anos da Biblioteca Municipal de Londrina, a informação foi inexplicavelmente colocada de lado. A mesa composta, por cinco debatedores (Antonio Bivar, Reinaldo Moraes, Mário Bortolotto, Márcio Américo e Nelson Capucho), não foi capaz de abordar, com clareza, o assunto. Uma verdadeiro contra-senso, já que dois escritores presentes, os paulistas Antonio Bivar e Reinaldo Moraes, traziam na bagagem um precioso conhecimento sobre o tema.
Para a platéia restou presenciar um evento desgovernado. Quando uma informação começava a ganhar definição, era imediatamente interrompida de maneira gratuita. Na falta de informações e troca de idéias consistentes e claras, as falas foram substituídas por brincadeiras pautadas pelo humor. Assim, a ''literatura beat'' propriamente dita, o tema do evento, foi substituída por uma suposta postura ''beat'' de debate sem articulação.
As pessoas da platéia, basicamente constituída de jovens, que por ventura esperavam conhecer o que é ''literatura beat'', saíram do debate sem informações palpáveis a respeito. As pessoas que tinham algum conhecimento do assunto e esperavam saber mais, deixaram o evento sem informações complementares. Vale lembrar que, ao mesmo tempo que os debatedores solicitavam a participação da platéia, ela não foi devidamente levada em consideração.
Tudo isso talvez não tivesse relevância se o tema do evento fosse outro. Isso porque existe basicamente um único livro publicado no Brasil sobre a ''literatura beat''. As obras de Kerouac, Ginsberg, Burroughs, Ferlinghetti, Corso e Cassady - os grandes expoentes do movimento - publicadas no país, estão quase todas esgotadas ou fora de catálogo. Nesse sentido, informações sobre o assunto precisam ser caçadas com olhos de lince. O debate, nesse sentido, seria uma oportunidade rara nesse sentido.
Os membros do ''movimento beat'' defendiam uma liberdade irrestrita, onde a vida e a arte formassem um único corpo. O resultado era uma experimentação de extrema ousadia, onde a própria vida era colocada em jogo. As obras dos escritores beats refletem esse universo caótico e experimental, mas organizado através de uma escrita estruturada, sustentada por informações estéticas, seja objetivas ou subjetivas.
O debate em questão, ao adotar uma postura anárquica e improvisada, uma das belas características do ''movimento beat'', apresentou de maneira humorada o que poderia ser uma exemplar ''vivência beat'', embora claramente vulnerável em seu conteúdo. Tudo indica que a experiência pessoal assume a forma de matéria prima da escritura, algo que tomará forma no futuro, na solidão da caneta e do papel. Resumindo, o evento deu a entender que ler ''literatura beat'' é melhor que presenciar um debate sobre ela.


