A atriz Zezé Polessa se considera uma ‘‘curinga’’ nas mãos da Globo. Tal e qual a carta que muda de valor dependendo do que o jogador tem em mãos, ela se sente apta a fazer qualquer papel. Aos 47 anos, já interpretou uma beata carola em ‘‘Hilda Furacão’’, uma vilã medonha em ‘‘Memorial de Maria Moura’’ e uma suburbana popozuda em ‘‘Salsa & Merengue’’. Em ‘‘Porto dos Milagres’’, Zezé exercita essa versatilidade como Amapola Ferraço, uma ‘‘perua emergente’’ que faz de tudo para seduzir o marido Otacílio, vivido por Eduardo Galvão. ‘‘Sinto que a Globo gosta de me guardar para ocasiões especiais. E eu também. Só gosto de fazer o que nunca fiz antes’’, frisa.
Por isso mesmo, Zezé ficou tanto tempo sem fazer novelas. A última em que atuou foi ‘‘Salsa & Merengue’’, de Miguel Falabella. De lá para cá, limitou-se a fazer ‘‘Hilda Furacão’’, ‘‘Você Decide’’ e ‘‘Garotas do Programa’’. Neste meio tempo, foi convidada ainda para substituir Márcia Cabrita no elenco do ‘‘Sai de Baixo’’. A atriz pensou, pensou, mas declinou do convite. Estava ‘‘traumatizada’’ demais para aceitá-lo. ‘‘Não gostei do ‘Garotas’. O texto era ruim, a produção malcuidada e o visual poluído. É muito triste trabalhar num negócio que você não gosta’’, confessa.
Para a felicidade da atriz, o humorístico acabou com menos de seis meses no ar. Mesmo assim, ela não conseguiu ficar muito tempo parada. Logo, foi chamada para ‘‘Porto dos Milagres’’. O papel não chega a preencher o requisito de só fazer personagens que nunca fez. Afinal, ela já havia interpretado uma ‘‘perua emergente’’ em ‘‘Explode Coração’’. Embora pequeno, o papel da Mila serviu para mostrar que a imagem da atriz não estava a serviço apenas de personagens horrendas como a Firmo de ‘‘Memorial de Maria Moura’’ e Jandira de ‘‘Decadência’’. ‘‘Desde então, meus papéis ficaram mais sensuais. A Mila fazia o gênero bonitinha e a Marinelza, de ’Salsa’, a gostosona’’, orgulha-se.
Mas a atriz admite que precisou negociar com a Globo para não ter a imagem limitada pela idade. Em ‘‘Explode Coração’’, o diretor Dênis Carvalho queria que ela fizesse o papel de Luzineide. Nada demais. A não ser pelo fato de a personagem ser a mãe de Cássio Gabus Mendes, de 39 anos. ‘‘Se tivesse aceito aquele convite, estaria perdida. Jamais conseguiria outro papel de 40 depois de fazer uma de 50 por quase nove meses’’, raciocina. Mesmo assim, Zezé acredita que a idade não chega a prejudicar a carreira. Ela ressalta que os personagens mais interessantes de ‘‘Porto dos Milagres’’ são os interpretados por atrizes mais maduras, como Arlete Salles e Cássia Kiss. ‘‘Não preciso fazer o tipo jovenzinha para conseguir bons papéis. Quando estreei na tevê, em 85, já não era nenhum brotinho’’, ri.
Extrovertida e bem-humorada, Zezé se diz feliz com a atual fase da carreira. E diz que a fogosa Amapola contribui para isso. O pedido da Globo para tingir os cabelos de ruivo parece tê-la rejuvenescido. ‘‘A velhice não me amedronta. O trabalho é o melhor remédio contra ela’’, garante. Nas ruas, não há quem não repare no novo visual da atriz. Da primeira vez que saiu às ruas, não esquece do olhar arregalado do vendedor de uma loja de sucos. ‘‘O que vai aparecer de dona com o cabelo igual ao seu...’’, profetizou o simpático atendente.
Apesar de satisfeita com a personagem, Zezé não sabe o que esperar da fútil Amapola. Futilidade essa que tem arrancado boas gargalhadas da atriz. ‘‘Que falta faz Miami para uma mulher descolada como eu...’’, cita uma das falas da personagem ao descobrir, consternada, que não existiam shoppings em Porto dos Milagres. Sandices à parte, a atriz acredita que Amapola pode ser útil na vida de muitas telespectadoras. Ela elogia a disposição da personagem de estar sempre exercitando o jogo da sedução com o marido, com direito a caminhadas na esteira e poções afrodisíacas. ‘‘As mulheres vivem reclamando que não são amadas como gostariam, mas nada fazem para reverter a situação. Poucas são as que investem na relação’’, ensina.
Se não fosse atriz, Maria José de Castro Polessa seria médica. Terceira de uma família de quatro irmãs, foi a única a seguir a carreira artística. Antes, porém, tentou a Medicina. O pai não escondeu a frustração quando a futura atriz disse que abandonaria a faculdade no sexto período. Para cumprir a vontade paterna, ela voltou atrás e se formou pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas nunca exerceu a profissão. A realidade social do país a desencorajou. Antes de desistir da profissão, estagiou ainda na Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, onde prestava assistência a pobres e indigentes. ‘‘Sonhava em salvar vidas e resolver os problemas do mundo, mas não consegui. A realidade era mais forte que eu’’, reconhece.
A atriz estava concluindo um curso de Medicina Social quando recebeu um convite para dirigir a peça ‘‘Azul Lata que Veio da Mata’’. A paixão pelo teatro, aliás, era antiga. Quando criança, adorava ir ao colégio só para arriscar umas caras e bocas nas aulas de teatro. Na faculdade, estudava de dia e assistia aos espetáculos à noite. Já adulta, montou ‘‘O Despertar da Primavera’’, com atores egressos de outras disciplinas. Miguel Falabella tinha cursado Letras e Daniel Dantas, com quem Zezé foi casada por oito anos, abandonou o Direito. A decisão de ser atriz coincidiu com a gravidez de João Dantas, hoje com 19 anos. ‘‘Quando você engravida, se sente a pessoa mais poderosa do mundo. Acreditei que tudo ia dar certo e deu’’, orgulha-se.

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