A vida torturada de uma mulher que perdeu a filha nas mãos assassinas de um estuprador, por algum tempo ficou como uma cicatriz aberta na alma da atriz Mazé Portugal. Em ‘‘Os Contos de Maldoror’’, com o Grupo Satyros, Mazé era a mãe que carregava a dor da morte e da violência. A fase passou, mas o desempenho no palco rendeu-lhe o troféu Gralha Azul de melhor atriz do ano. Pena que o reconhecimento não seja um ‘‘abre-te Sésamo’’ para novas produções.
Quem diz isso é a própria Mazé, que tirou proveito do prêmio como uma certeza a si mesma de que a opção pelo teatro foi uma decisão acertada. Ex-publicitária - trabalhou na agência Heads, em Curitiba -, jogou todas as fichas no teatro, encarando os riscos.
‘‘Este é o primeiro ano que vivo exclusivamente da arte. O Gralha Azul não assegura trabalho, que é o que a gente mais precisa. Mas para mim - e principalmente para os que me cercam - deu a certeza de que não estou enganada sobre meu talento’’, afirma.
Esta é uma constatação, não necessariamente uma lamúria. ‘‘Um caso típico é o de Tadeu Peroni, que ganhou como melhor ator e ficou um tempão sem conseguir outro papel’’. Independente disso, o certo é que 1999 acena com oportunidades interessantes para a artista.
Em fevereiro a peça ‘‘Medéia’’, adaptação do Grupo Satyros, na qual Mazé Portugal vive uma das Medéias, sobe ao palco do Teatro Glória, do Rio de Janeiro. Em março ‘‘Os Contos de Maldoror’’ deverá participar da mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba (o Fringe).
Em abril a peça integra a mostra de cartazes do ‘‘Festival Lautreamont’’, promovido pela Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo. Se conseguir empresa incentivadora o grupo viaja em meados do ano para levar ‘‘Maldoror’’ à Europa. A porta de entrada será o Festival de Edimburgo.
Tem mais: a atriz teve seu projeto aprovado para montar ‘‘A Dança da Morte’’, de August Strindberg. O texto, poucas vezes montado no Brasil, foi levado à cena por Fernanda Montenegro sob o título de ‘‘Seria Cômico Se Não Fosse Trágico’’. A direção ficará a cargo de Rodolfo Vazquez. ‘‘Se não der certo em 99, faremos no ano 2000’’, promete Mazé.
A atriz pertence à escola daquelas que só tem a personagem devidamente talhada depois de revirar a alma em busca de sua essência. ‘‘Eu preciso entender a personagem, isso é básico. Outra coisa primordial é a composição da voz, dos gestos, o desenho do corpo. O ator que é sempre o mesmo em cena, jamais será um bom ator’’, decreta. Para si ela busca o exercício constante: ‘‘Adoro versatilidade’’.
Basta ver aquilo que já fez no palco: era uma dessas italianas típicas em ‘‘Bela Ciao’’ (com um grupo de estudantes que projetou Licurgo Espíndola), a locutora solteirona que destila solidão em ‘‘A Rainha do Rádio’’; fez coro em ‘‘Prometeu Agrilhoado’’.
Apaixonada pela profissão (‘‘minha paixão é interpretar’’), Mazé tem vontade de fazer cinema. ‘‘O que faz ali fica registrado para sempre’’, diz justificando a escolha. Não só a perenidade das imagens é que lhe chama a atenção para o cinema. Tem o lado do desafio de trabalhar com uma técnica inteiramente diferente daquela explorada no palco.
‘‘Fazer novela é horrível’’, continua. Mazé foi convidada para gravar alguns capítulos da fase final de ‘‘Ana Raia e Zé Trovão’’, produzida pela TV Manchete. Tirando os medalhões, que podem repetir a cena, o resto do elenco grava uma única vez. ‘‘Aí você acha que não se saiu bem, que deveria fazer de novo, e não faz. Vai daquele jeito mesmo’’, diz contrariada. Mais um aprendizado: a indústria folhetinesca eletrônica não tem tempo para a busca da qualidade interpretativa.DivulgaçãoMazé Portugal: ‘‘Este é o primeiro ano em que vivo exclusivamente da arte. O Gralha Azul não assegura trabalho, mas deu a certeza de que não estou enganada sobre meu talento’’Depois de ganhar
o troféu Gralha
Azul este ano,
Mazé Portugal
prepara-se para
estrear no Rio
em fevereiro

mockup