A trajetória da atriz Fernanda Montenegro representa a história do teatro brasileiro. Os 50 anos de carreira da atriz – merecidamente festejados – tem uma estreita ligação com as transformações ocorridas em nossos palcos. Parte dessa trajetória de viajante das almas pode ser conferida, a partir de hoje, em Londrina, com a exposição ‘‘Fernanda EnCena’’. O evento percorre o País, apresentando a vida artística da matriarca dos palcos.
Vídeos, fotos dos personagens – e também do álbum de família e de Arlete Pinheiro (seu verdadeiro nome) – depoimentos, entrevistas e trilhas sonoras, agrupam, mas não comportam, toda uma existência de excessos. A retrospectiva inclui trabalhos no cinema, rádio e tevê de 1950 a 2000. Um genuíno resgate da genética teatral, da condenação bíblica do trabalho de atriz.
Das atuações em cinema, imagens resgatam a atuação minimalista de ‘‘A Falecida’’, de 1964, dirigido por Leon Hirszman, ‘‘O que é isso Companheiro?’’, de Bruno Barreto, ‘‘Central do Brasil, de Walter Salles, até seu recente sucesso em ‘‘O Auto da Compadecida’’, de Guel Arraes.
A exposição reflete a história subliminar e até mesmo subversiva, de um ofício lento, desgastante e fugidio. Não reflete somente a carreira de uma atriz, mas a contribuição para o amadurecimento do papel do ator no mundo, que sobrevive porque persevera no ofício de intérprete. Os elementos da exposição induzem de forma natural a uma reflexão sobre os 50 anos de teatro brasileiro.
A paisagem humana personificada pela atriz é, sem dúvida, densa e inumerável. No teatro, acompanha Fernanda Montenegro um verdadeiro exército feminino: Zizi, Rosinha, Annie Jacquet, Jolly, Lúcia, Agnes, Luciana, Lucília, Mariana, Laudelina Cardoso, Vivien Warren, Cremilda, Sabina, Selminha, Mirandolina, Clotilde, Ruth, Winnie, Alice, Débora Harford, Vera, Conceição, Petra Von Kant, Fedra, Dona Doida, Lovemar, Arkádia...
A atriz participou também de um marco televisivo, o Grande Teatro Tupi nos inícios dos anos 50, programa que sedimentou a teledramaturgia, oportunizando ao grande público conhecer consagrados autores universais e nacionais. A operária Fernanda chegou a fazer 500 teleteatros. Ainda na tevê, protagonizou importantes comédias, elevando o status do gênero. Vale lembrar ‘‘Guerra dos Sexos’’, de Silvio de Abreu.
Os filmes ‘‘Eles não Usam Black Tie’’, de Leon Hirszman’’, ‘‘A Hora da Estrela’’, de Susana Amaral, ‘‘Central do Brasil’’, de Walter Salles, carimbaram o passaporte de Fernanda Montenegro para o reconhecimento da cinematografia brasileira no exterior. A indicação ao Oscar de Melhor atriz para a sensível e arrebatadora interpretação de Dora, de ‘‘Central do Brasil ’’, disseminou pelos quatro cantos do mundo o mais alto nível da arte de representar.
A meditação sobre a dignidade do ator nos palcos, inseriu a atriz em altos estudos humanísticos, abstraindo os julgamentos morais, aceitando o ser humano na sua falência. A excelência e a consciência da atriz instiga a meditar sobre a função e a expressão social da condição do ator no Brasil, seja num palco de rua, ou na tela de cinema protagonizando a estética da fome.
Na exposição ‘‘Fernanda EnCena’’, a atriz vêm acompanhada pelo marido, o ator Fernando Torres. Na abertura da exposição, as pessoas que estiverem presentes recebem uma foto autografada de Fernanda Montenegro.
‘‘Fernanda EnCena - Retrospectiva 50 Anos’’, abertura hoje, às 18 horas, na Praça de Eventos do Catuaí Shopping Center, em Londrina, com a presença da atriz Fernanda Montenegro. A exposição permanece até o dia 15 de outubro. Entrada franca.

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