Uma artista genial e geniosa
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de abril de 2003
Sérgio Dávila<br> Agência Folha 
''Ne me quitte pas, il faut oublier, tout peut s'oublier qui s'enfuit déjà, oublier le temps des malentendus et le temps perdu a savoir comment, oublier ces heures qui tuaient parfois, a coups de pourquoi le cour du bonheur, ne me quitte pas, ne me quitte pas, ne me quitte pas.''
Nina Simone está sentada de lado para a platéia de um dos primeiros Free Jazz em São Paulo, em 1988, no Palácio das Convenções do Anhembi. Seus olhos estão vermelhos, ela bebe um gole de uísque a cada intervalo, prendeu os cabelos no alto da cabeça e veste uma roupa africana aberta nas laterais que deixa à mostra seus seios.
Martela as teclas do piano como se não houvesse amanhã. Canta sentindo cada palavra da triste música de Jacques Brel. Quando pede que seu amado não a abandone, não a abandone, que tudo pode ser esquecido, a platéia acredita que aquela mulher então cinquentona está sofrendo de amor e chora um pouco junto.
Essa característica era o que fazia única a pianista e cantora. Dava versões definitivas das músicas, fossem canções de dor-de-cotovelo, como a de Brel, fossem títulos pop, como ''Here Comes the Sun'' e ''My Sweet Lord'', de George Harrison, ou ''Don't Let Me Be Misunderstood'', clássico dos anos 60 de Gloria Caldwell, Sol Marcus e Bennie Benjamin que ganharia fama momentânea na era disco com o Santa Esmeralda. Fossem ainda suas composições próprias.
Era aí que Nina Simone se mostrava ainda mais intransigente, dando broncas históricas em seu público. Aconteceu várias vezes ao interpretar, por exemplo, ''Mississippi Goddam'' (''maldito Mississippi''), que escreveu em 1963, após o assassinato do defensor negro de direitos civis Medgar Evers naquele Estado norte-americano.
A estrutura da música e alguns versos dão a impressão de que se trata de algo cômico; se Nina estava inspirada ou tinha bebido umas a mais, a coisa toda ficava ainda mais caricata, o que por vezes fazia a platéia rir. Ela parava o show e perguntava qual era a graça na morte covarde de um jovem negro, assassinado à bala ao chegar em sua casa numa noite.
Então, convocava todos a cantar com ela ''We Shall Overcome'', adaptação de gospel do começo do século passado que virou hino da luta pelos direitos dos negros na sociedade norte-americana. Ou outra composição sua, ''The King of Love Is Dead'', que fez em homenagem a Martin Luther King (1929-1968). E tudo ficava bem de novo para ela.
Quando deu entrevista a este repórter, há três anos, a artista desdenhou jovens talentos como Diana Krall (''Não tenho a menor idéia de quem você está falando. Eu sou Nina Simone. Ela é quem?'') e confessou que era duro estar em seus sapatos (''Estou muito velha, não quero gravar mais nada. Não é fácil ser Nina Simone'').
Nos últimos anos, sua voz já não tinha mais a mesma potência de antes. Nina fazia nitidamente cada vez mais esforço para tirar os mesmos efeitos que obtinha no auge, nos anos 60, 70 e 80, quando os graves rascantes e os agudos suaves influenciaram meio mundo e sua mãe. Invertendo os versos iniciais daquela sua interpretação mais famosa, Nina Simone nos abandonou primeiro, antes que começássemos a abandoná-la, enxergando-a como uma ''velha exótica'', o que sempre é o prenúncio da decadência.


