Apesar de sempre ter sido apaixonada por comédia, a atriz Daniele Pezenti nunca se imaginou trabalhando com palhaçaria. O talento para as palhaçadas foi descoberto quando decidiu montar seu primeiro espetáculo de rua, há cinco anos, na época em que ainda cursava Artes Cênicas na Universidade Estadual de Londrina. Premiada recentemente em quatro categorias (Melhor Atriz, Melhor Espetáculo, Melhor Trilha Sonora e Melhor Maquiagem) do 20º Festival de Teatro de Guaçuí, no Espírito Santo, a londrinense tem se dedicado a pesquisar sobre palhaçaria feminina, um movimento que vem crescendo no Brasil.

“Quando a gente pergunta o nome de algum palhaço famoso, ninguém nunca cita uma mulher. Isso acontece porque as mulheres eram proibidas de atuar dentro desta estética que sempre foi dominada por homens”, argumenta Daniele. Na avaliação dela, a falta de atuação feminina no segmento acontece por fatores históricos e comportamentais. “O palhaço desperta o riso das pessoas através da identificação do público com o ridículo que há em todos nós. E ainda hoje precisamos lutar contra a imagem idealizada de precisamos ser sempre meigas, delicadas e parecidas com uma princesa”, enfatiza.

Daniela Pezenti em ação na palhaçaria: rompendo preconceitos numa área que sempre foi dominada pelos homens
Daniela Pezenti em ação na palhaçaria: rompendo preconceitos numa área que sempre foi dominada pelos homens | Foto: Valéria Felix/ Divulgação

Daniele confessa que ela mesma sentiu dificuldades de encontrar referências femininas em suas pesquisas acadêmicas sobre a palhaçaria. “As mulheres só começaram a atuar como palhaças com a ampliação das escolas de circo que aconteceu a partir dos anos 1980, pois os circos tradicionais até então só permitiam a atuação de palhaços homens. Uma grande referência que descobri nas minhas pesquisas foi a atriz suíça Gardi Hutter, com quem fiz uma oficina em Florianópolis há alguns anos. Ela atua nesta luta há muito anos na Europa, demonstrando que essa restrição não acontece apenas no Brasil”, relata.

A atriz afirma que embora existam mais mulheres fazendo palhaçaria pelo país, o desempenho feminino ainda é visto com um pouco de desconfiança por parte do público. “Devem pensar: será que ela vai mesmo dar conta do recado sozinha? Mas esse preconceito só dura até a primeira risada”, diz ao ressaltar que o caminho para fazer o público rir é mais árduo para a mulher do que para o homem. “Neste jogo da palhaçaria a gente precisa mostrar nosso lado grotesco, com o qual o público acaba se identificando. E é mais fácil para as pessoas aceitarem esse comportando vindo de um homem”, salienta.

A londrinense destaca que em seu premiado espetáculo “Que Festa É Essa, Criatura?” incluiu elementos feministas na tentativa de ajudar a derrubar paradigmas machistas. “Não levanto nenhuma bandeira explicitamente, mas mostro uma palhaça que toca guitarra, promove guerra de almofadas e que não faz a linha meiguinha. Pelo contrário, ela é muito brava”, ressalta sobre a palhaça Incrível Teimosa, que na montagem é contratada pela mulher mais rica da cidade, Senhora D, para animar uma festa e mas surpreendendo a todos com suas trapalhadas nada convencionais. O espetáculo que estreou em 2016 será apresentada neste domingo (15), às 16 horas, Zerão.

A atriz Daniele Pezenti afirma que "as mulheres ainda precisam lutar contra a imagem idealizada de precisamos ser sempre meigas, delicadas e parecidas com uma princesa"
A atriz Daniele Pezenti afirma que "as mulheres ainda precisam lutar contra a imagem idealizada de precisamos ser sempre meigas, delicadas e parecidas com uma princesa" | Foto: Ricardo Chicarelli

Premiada no Espírito Santo, a montagem encenada pela Companhia Londrinense de Teatro Incrível Teimosa tem sido levada a diversas regiões da cidade com apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). “Foi uma grata surpresa ter conquistado os prêmios de melhor atriz, melhor espetáculo, melhor trilha sonora e melhor maquiagem no Festival de Teatro de Guaçuí, que reúne artistas de todo o Brasil. Essa foi a primeira vez que participei do evento e nesta edição fui a única representante do Paraná. Essa premiação que aconteceu no mês passado serviu para dar uma gás e mostrar que estou no caminho certo. Com apoio do Promic tenho me apresentado em vários bairros de Londrina. Neste momento duro que estamos vivendo é importante fazer as pessoas rirem. E o público tem se mostrado extremamento aberto ao riso”, conclui a artista.

Serviço:

Espetáculo “Que Festa É Essa, Criatura?”, com a Companhia Londrinense de Teatro Incrível Teimosa

Quando – Domingo (15), às 16 horas

Onde – Zerão

Gratuito

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