Uma aposta na insensatez
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de março de 1999
Jackeline Seglin 
Ele é tão apaixonado por palavras, que faz delas uma de suas maiores armas. O diretor e ator Antonio Abujamra chega a Curitiba - sempre munido de seu humor cáustico e mordaz - para a estréia do espetáculo As Fúrias no 8º Festival de Teatro de Curitiba (FTC). Com o grupo carioca Os F... Privilegiados, ele leva ao palco do Guairinha a montagem do que considera uma das peças mais bonitas que dirigiu - e olha que foram 92! Como ele mesmo faz questão de frisar, é um espetáculo evidente e insensato, como o ovo de Colombo.
As Fúrias, uma adaptação do próprio Abujamra para o texto do espanhol Rafael Alberti, conta a história de Gorgo, uma velha espanhola com características matriarcais que, após a morte do irmão, corta-lhe as barbas e passa a usá-las, tornando-se o homem da casa.
Gorgo vive com duas irmãs velhas (que sempre estão competindo entre si) e acolhe na casa um mendigo que presta favores sexuais às senhoras. Mas, presa na torre, está Altéia, a sobrinha que é perseguida por sua beleza e juventude. Sempre subjugada pelas tias, a moça suporta a situação na esperança que Cástor, o primo e amado, venha buscá-la.
O título desta peça em espanhol é El Adefesio, que segundo o diretor é de difícil tradução, mas significa algo parecido com cruel, nojento, feio. Abujamra comenta que a peça foi escrita numa época em que o General Franco estava ganhando a revolução na Espanha. Esta peça demonstra, através da poética, como o poder executa e não dá lado nem para tentativas. A peça é uma postura de uma beleza poética e uma demonstração de que o poder exerce a crueldade, diz. A montagem é exatamente uma metáfora àquela época de extrema opressão política e social na Espanha.
Na opinião do diretor, Rafael Alberti é um dos maiores poetas do mundo. É o grande poeta da Revolução Francesa, o último humanista vivo, comenta. E não deixa de alfinetar: (Federico Garcia) Lorca não tem a grandeza de poetas como Alberti. Mas o espanhol não é considerado pela crítica teatral um grande dramaturgo. Isso é um erro. O Brasil é uma Bósnia cultural, não sabe nada de Alberti, da poesia adentrando no teatro, diz. Para ele, fazer este espetáculo é uma tremenda satisfação. É preciso que a poesia invada o teatro novamente, observa.
Nada modesto, Abujamra avalia que As Fúrias é um espetáculo difícil de ser arquitetado por companhias de teatro. Só um grupo absolutamente f... e privilegiado seria capaz de montar um peça assim, ironiza.
Nesta montagem, Abujamra trabalha com os atores Rose Abdallah, Guta Stresser, Denise SantAnna, Paula Sandroni, Cláudio Tizo e Alan Castelo (os dois últimos também participaram da assistência de direção, junto com Marcos Corrêa).
Abujamra não poupa nada, nem ninguém. E antecipa que o espetáculo não é para qualquer pessoa. O público que vê Trair e Coçar é só Começar ou que quer ver a graça e os prazeres vulgares brasileiros não vai assistir As Fúrias. Portanto, eu acho que ninguém vai ver a peça..., brinca.
Sobre a estréia da montagem, ele é direto: Sei lá no que vai dar, o que vai acontecer, como será no Guairinha... Eu só tenho um ensaio. Tenho que ver como as atrizes estão. A atriz é uma obra de arte em si mesmo. Portanto, ao abrir o pano, é com elas!
O grupo Os F... Privilegiados foi criado em 1991, a partir de um movimento iniciado por Abujamra no intuito de reavivar a cena teatral do Rio de Janeiro.
SERVIÇO:
- As Fúrias, de Rafael Alberti. Adaptação e direção geral: Antonio Abujamra. Com o grupo Os F... Privilegiados. Hoje, às 21h30, amanhã e domingo, às 20 horas, no Guairinha (Rua Quinze de Novembro, 1.299). Ingressos a R$ 20,00.


