Uma análise da mestiçagem
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segunda-feira, 23 de março de 1998
Julio Olaciregui France Presse 
ReproduçãoJorge Amado foi entrevistado na Bahia e citado na LExpress como monumento da literatura universalA mestiçagem de deuses do candomblé, um dos cimentos da cultura afro-brasileira, foi um dos temas tratados pelos antropólogos franceses, nos encontros culturais que aconteceram antes da inauguração do Salão do Livro de Paris. Candomblé, umbanda, xangô e as culturas afro-brasileiras foi o título do debate, dia 17, na Biblioteca Buffon, entre os escritores e antropólogos Frederic Pages, Marion Aubrée, Michel Dion, François Laplantine e Muniz Sodré acerca do sincretismo religioso brasileiro.
Xangô é um orixá (espírito) maior, deus do fogo, do raio, do trovão, da guerra, da dança, da música e da beleza viril e representa o maior número de virtudes e imperfeições humanas. No candomblé não há diabo nem inferno. É por isso que sempre gostei de participar dele, revela o escritor Jorge Amado em uma entrevista publicada pela revista parisiense LExpress, que dedica ao Brasil mais de dez páginas em seu último número.
Amado, entrevistado em sua casa na Bahia, é descrito como um monumento da literatura universal, um desses raros escritores que soube captar a alma mestiça e inatingível do Brasil.
As coisas aqui só mudaram na aparência, na superfície. Claro está que a cidade e o país parecem diferentes, mas a Bahia não evoluiu em suas características fundamentais. Vejo a mesma miséria que continua. Simplesmente, desde 1985, a democracia, apesar de muitas desilusões, nos permite esperar. O fim da ditadura é o começo de tudo, declara Amado nessa entrevista.
Por motivo do Salão do Livro de Paris, a agência cultural da capital francesa se associou à Casa de Ciências Humanas e ao Centro de Pesquisa sobre o Brasil Contemporâneo, para organizar encontros que permitam conhecer melhor a cultura e a sociedade do Brasil.
Na galeria botânica do Jardin de Plantes se realiza atualmente uma exposição chamada A Ressurreição de Canudos, a cidade utópica e comunitária que nasceu em pleno sertão há um século e que foi aniquilada pelo exército brasileiro. Cinquenta quadros evocam, à maneira de um afresco documental, a formação e o martírio da comunidade assediada. Por outro lado, o festival Escritura exibe uma série de filmes brasileiros inspirados em obras literárias, entre eles Guerra de Canudos, um dos mais ambiciosos longas da história do cinema brasileiro.
Este ano a literatura brasileira é a convidada de honra do Salão do Livro de Paris. O Brasil, esse imenso país de dimensões continentais, possui uma diversidade cultural fecunda em todos os domínios artísticos. A riqueza visual dos universos pintados nos romances de nossos maiores autores como Jorge Amado, Graciliano Ramos ou Mário de Andrade, tem seduzido numerosos cineastas, que ao adaptá-los para a tela nos deram lindos filmes, escreve Kátia Adler, na apresentação do evento.
Após a aniquilação da produção sob o governo de Fernando Collor no começo dos anos 90, o cinema brasileiro ressurge hoje com toda sua força e diversidade. Uma conjuntura mais favorável permite emergir novos cineastas, assim como os mais confirmados voltar a trabalhar, assinala Adler.
A escritora cita Central do Brasil, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim e O que É Isso, Companheiro?, candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro.
Um século depois daquele misterioso barco que trouxe do Brasil um delirante embrulho para um dos personagens de Guy de Maupassant, a surpreendente acumulação de povos, raças e civilizações faz o Brasil de hoje continuar fascinando os franceses.


