Parece receita um tanto indigesta, mas o mago Woody Allen sabe dosar os ingredientes e tornar seu prato palatável. Claro, 72 anos de vida e 42 filmes como diretor dão a ele ''certo'' lastro. Em ''O Sonho de Cassandra'', em lançamento hoje na cidade (veja a programação de cinema na página 2), o cineasta deixa de lado a comicidade e a ironia e se acomoda com muito jeito no terreno do thriller, gênero não desconhecido para ele, que se utiliza do entorno de um crime para examinar a natureza humana em graus variados de profundidade.
Novamente ambientado em Londres, este penúltimo filme de Allen (ele acaba de apresentar em Cannes a comédia ''Vicky Cristina Barcelona'') oferece um relato envolvente e recheado de surpresas, centrado nas atribulações de dois irmãos de classe média baixa: Ian (Ewan McGregor) e Terry (Colin Farell), ansiosos para deixar para trás a mediocridade de suas vidas. O primeiro é alguém frívolo e inconstante, no momento apaixonado por jovem e independente atriz. Já Terry é jogador compulsivo, sempre contraindo novas dívidas que superam de longe sua capacidade de liquidez.
Mesmo apertados financeiramente, os irmãos compram um veleiro dos sonhos, aliás o ''Cassandra's Dream'' do título, com a intenção de reformá-lo e navegar nos fins de semana. Esta nova despesa e a compulsão de Terry pelo jogo farão com que ambos iniciem um perigoso caminho sem volta. Caminho proposto pelo tio endinheirado (Tom Wilkinson), alguém com quem a família pode contar sempre que houver dificuldades materiais. Este se dispõe a emprestar o dinheiro que vai tirar a dupla do sufoco, e com sobras. Mas tudo tem um preço, neste caso cometer um crime e portanto transgredir a lei.
O território onde se desenrola a trama é aquele impregnado pelos clássicos gregos, pelo teatro trágico inglês e por Hitchcock, a quem o filme deve boa parte de sua engenhosidade. A este roteiro de eficaz natureza dramática deve-se acrescentar diálogos inteligentes e chispas de humor, além do concurso bem calibrado de McGregor e Farrell e da providencial trilha musical de Philip Glass composta especialmente para o filme - o que contraria um dos hábitos de Allen, que utiliza sempre comentários musicais pré-existentes. (C.E.L.J.)

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