Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha2
Um dos emblemas da resistência e teimosia do cinema brasileiro nas últimas três décadas, o diretor João Batista de Andrade está de volta ao circuito com seu trabalho mais recente, ‘‘O Tronco’’, que sucede ao equivocado ‘‘O Cego que Gritava Luz’’. O lançamento comercial do filme, mês passado em São Paulo, não impediu que fosse selecionado para o Festival de Brasília e exibido quarta-feira à noite na seção competitiva. Os vencedores dos troféus Candango serão conhecidos amanhã.
Baseado em romance homônimo do goiano Bernardo Elis, ‘‘O Tronco’’ é um drama épico ambientado no interior de Goiás - locações em Pirenópolis - no início do século. É a narrativa ficcionalizada de um fato real - uma disputa sangrenta pelo poder envolvendo latifundiários governistas do Sul e coronéis do Norte. No respeitável elenco principal, Antônio Fagundes - uma carta sempre na manga de Andrade - Angelo Antonio, Letícia Sabatela, Chico Diaz, Cida Moreira e Rolando Boldrin, também um colaborador histórico - juntos ganharam Gramado-78 com ‘‘Doramundo’’.
Apesar do pano de fundo político localizado no tempo e no espaço e do tempero idílico por conta de um romance proibido, ‘‘O Tronco’’ é em essência uma aventura, uma espécie de faroeste que universaliza os conflitos humanos, segundo João Batista de Andrade: ‘‘Minha intenção principal foi trabalhar o romance dentro de uma visão mais clássica, onde os personagens estão mergulhados numa série de acontecimentos por eles mesmos provocados, sofrendo as suas consequências, já os acontecimentos são maiores do que a capacidade humana de enfrentá-los. Então eu estava com uma visão mais universal dos conflitos que geram a guerra.’’
Como sempre, a produção dos filmes de João Batista de Andrade é da Raiz Produções Cinematográficas, leia-se Assunção Hernandez, mulher do diretor. E o sistema de produção de ‘‘O Tronco’’ reflete desde já uma tendência do cinema brasileiro em busca da globalização. Uma possível saída para a sobrevivência das sofridas cinematografias nacionais, entre elas o Brasil. Participaram da realização do filme os pólos de cinema do Distrito Federal e do Ceará; em diversas etapas do processo a produção buscou alternativas de tecnologia fora do País, ‘‘não que por aqui não existam bons estúdios e laboratórios, mas por uma decisão de política de produção’’, afirma João Batista de Andrade. E o diretor prossegue: ‘‘No filme há muitos efeitos de cena, sofisticados e que deram bastante trabalho. Em geral se trabalha no Brasil mais com metáforas do que com tratamento realista. Neste caso eu queria contar uma história que é muito forte, dentro de uma estrutura narrativa mais tradicional, procurando incorporar no processo o que há de mais moderno em termos de recursos técnicos para obter uma narrativa mais universal.’’
O título do romance de Bernardo Elis, mantido na adaptação assinada pelo próprio Andrade, refere-se ao instrumento de tortura utilizado ao tempo da escravidão e que na Goiás de 1919 continuava a servir de objeto para punição dos adversários que ousassem contrariar os coronéis em seus domínios.

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