Um vôo nas asas do choro
Ranulfo Pedreiro
Tudo começou com uma pequena flauta de lata, durante a infância. E de sopro em sopro, os sons se desenvolveram, alcançaram padrões profissionais e hoje mantêm audiências em lugares tão distantes quanto Estados Unidos, Europa e Japão. Altamiro Carrilho chegou aos 55 anos de carreira ao lado do gênero musical que sempre defendeu: o choro.
A fidelidade se explica. A riqueza melódica e harmônica do gênero é associada a composições de qualidade que finalmente estão se desnudando mundo afora. Pena que no Brasil o público ainda não foi fisgado com a intensidade necessária. Para preservar a música que flui em seus neurônios, Altamiro também compartilha conhecimentos. É por isso que ele chega hoje a Londrina para ministrar um workshop dentro da Oficina de Choro do 19º Festival de Música da cidade.
Das melodias tocadas na infância à atualidade, Altamiro Carrilho vive uma carreira ascendente que inclui uma estréia como calouro no programa de Ari Barroso, na década de 40, gravações com Moreira da Silva e uma série de conjuntos famosos, inclusive o regional do Garoto, onde substituiu Benedito Lacerda.
Carrilho tocou ao lado de Silvio Caldas, Vicente Celestino e Orlando Silva, até decolar na década de 60 para a carreira internacional. Seu virtuosismo é uma síntese de embocadura perfeita e velocidade de execução, associado a uma facilidade fora do comum para o improviso.
Não é à toa que, após 70 discos lançados, o instrumentista foi gravado por Paula Robson, a primeira flautista da Orquestra Sinfônica de Nova York. Suas composições fazem parte do repertório dos nove grupos de choro que existem nos Estados Unidos, de mais cinco no Japão e pelo menos de um em Paris, onde também teve uma composição gravada. Em 1997 recebeu o Prêmio Sharp com o CD Flauta Maravilhosa.
Comecei a estudar mesmo com 11 anos, as pessoas ficavam alucinadas quando eu tocava, e isso chamou a atenção dos meus pais para que eu fosse aproveitado, comenta, em entrevista à Folha2. Atualmente, Carrilho demonstra interesse em ensinar sua técnica, e até lançou um CD intitulado Chorinhos Didáticos, com play-back e partitura em anexo.
Eu acho que o choro sempre foi a música mais importante do Brasil desde o século passado, quando não existiam os meios de comunicação que existem hoje, assegura. Sua preocupação com a música brasileira lhe valeu até uma comenda especial concedida por Fernando Henrique Cardoso.
Altamiro Carrilho parece agora receber os retornos da causa que abraçou. Ao mesmo tempo em que seu nome começa a ser lembrado no exterior, ele acompanha com satisfação a desenvoltura que o choro ganhou nos dias de hoje. De uns 15 anos para cá o povo começou a notar que existe algo mais do que o forró e o pagode. Mas a mídia não dá espaço, não deixa os próprios brasileiros descobrirem o choro, salienta.
O compositor mostra indignação quando o assunto é música comercial: Estão fazendo mil besteiras, mas não tocam música. Falta um pouco de abertura, o choro tem tudo para ser a música brasileira mais tocada no exterior, é rico em harmonia e não sofre com a barreira do idioma.
Além de participar da Oficina de Choro do Festival, Altamiro Carrilho faz uma participação especial hoje, às 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde, na Oficina de Choro.





