Um violeiro que canta e encanta
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Ana Paula Nascimento<br>Reportagem Local 
Como um riacho manso que vai descendo até o pé da serra, o trabalho do violeiro Paulo Freire pega o ouvinte pelo ouvido e pelo coração. Dos acordes da viola caipira ao violão clássico, o som que brota das suas mãos não passa despercebido. Além de exímio instrumentista, canta bem e ainda é uma grande contador de "causos", daqueles bons, recolhidos nas conversas com os antigos, as pessoas simples da vida afora, que remetem a um outro ritmo do tempo, em que parece que estamos sentados em volta da fogueira, em uma noite estrelada, de lua cheia, apreciando o prazer de simplesmente estar vivo e poder apreciar a beleza das pequenas coisas. Paulo Freire já fez vários shows em Londrina, mas desta vez o convite foi motivado pelos dez anos do Brasiliano Bar & Cozinha, do amigo Marcelo Camargo, também músico, que preza pela qualidade gastronômica e musical do seu aconchegante restaurante desde a sua inauguração.
"Com certeza, Paulo Freire representa toda a proposta do Brasiliano, que sempre valorizou a música de qualidade e incentivou a música brasileira. É uma forma de também agradecer o público londrinense que acredita na autenticidade do nosso trabalho", comenta Camargo, que tem a intenção de realizar outros eventos comemorativos até o final do ano. O show, que tem patrocínio da Construtora Vectra, será realizado amanhã, às 20h30, no Teatro Hotel Crystal. Os ingressos custam R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada); ingressos promocionais a R$ 20 mediante a doação de 1 litro de leite longa vida). No show comemorativo Freire fará um apanhado de toda sua carreira, inclusive algumas canções do seu último disco "Alto Grande" - que contou com a participação de Ana Salvagni, Alexandre Ribeiro, Benjamin Taubkin, Levi Ramiro, Tuca Freire, Adriano Busko, Swami Júnior e Maurício Pereira.
Sonho
E tudo começou em 1977, quando Freire abandonou o curso de jornalismo para investir no sonho de ser músico. Na época já tocava em um grupo musical e estudava na escola do Zimbo Trio, mas foi a leitura de "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, que definitivamente foi o "divisor de águas" na sua vida. "O Grande Sertão foi fundamental da minha vida, o livro me pegou de jeito. Imaginei: se o Guimarães Rosa criou um mundo tão fantástico é porque a região que mostra no romance deve ter uma música também incrível", conta Freire, em entrevista por e-mail.
E, assim, ele se mudou para o sertão de Urucuia, em Minas Gerais, onde estudou com grandes mestres violeiros, como Manoel de Oliveira. Os estudos de violão clássico já tinha aprimorado em Paris e os contrastes de mundos e culturas só vieram enriquecer o seu trabalho. Filho do escritor Roberto Freire, ele lembra da alegria dos pais ao contar da sua decisão de morar no sertão de Guimarães Rosa. Um caminho sem volta, onde não se arrepende e recolhe os bons frutos até hoje.
Durante a sua jornada musical, Freire também descobriu o seu talento para cantar e contar "causos". "Sempre gostei de histórias. Minha família tem uma grande tradição de contar histórias. Sou apaixonado por livros. E gosto de grudar nos mais velhos e puxar assunto. Meu pai dizia que é necessário ouvir criativamente. É o que eu busco fazer", destaca.
"Quando meus filhos nasceram, naturalmente a história entrou no nosso dia a dia, ou noite a noite. Naturalmente nos shows eu contava causos. Fui escrevendo livro e gravando CD. Até que comecei a misturar tudo. Mergulhei na mitologia brasileira e gosto de contar histórias me misturando aos seres de nossa terra. Entonce vejo, escuto e também invento. Conviver com crianças é fundamental, elas nos ensinam a observar os assuntos sempre de uma forma original", acrescenta.
Sobre os rumos da música brasileira e da "febre" do sertanejo universitário junto ao público mais jovem em relação à música caipira, ele é taxativo: "O público mais jovem sempre irá se interessar pela boa música. Basta que ele tenha acesso a ela. Esse é o grande desafio num mundo que a indústria da cultura está voltada para um comércio específico. Sempre irão haver novos rótulos e novas bolas da vez. E só o tempo irá julgar se o que está na moda presta ou foi só um produto", avalia.
"Alto Grande"
Já sobre a gravação do belo "Alto Grande", Freire diz que foi o disco mais tranquilo de gravar na sua carreira: "Os músicos são amigos de toda uma vida. Foi construído aos poucos e inteiramente movido pela alegria de estarmos juntos. Espero que quem escute o CD perceba isso, a cumplicidade que nos move e enriquece. Apostar no amor e na alegria sempre dá certo!". O músico ainda fez questão de ressaltar a acolhida do público londrinense. "Fui criando um caso de amor com Londrina. Nas apresentações que fiz, estreei novas músicas e causos, porque sempre me senti muito bem, pronto para correr riscos", afirma.
"Causo do Angelino"
Vale destacar a canção que encerra o disco - "Causo do Angelino" - que traz a emocionante história de Angelino de Oliveira, autor do hino do homem do campo, a música "Tristezas do Jeca", também relatada no livro "Eu Nasci Naquela Serra" (1996), de Freire, em que pesquisou a biografia de Oliveira, Raul Torres e Serrinha, artistas fundamentais para a cultura caipira. "Não tem como não se emocionar com esta história, tanto quem escuta como quem conta", admite. "Na estação de Mairinque, numa noite fria e escura, naquela plataforma comprida e deserta..."
Serviço
Show de Paulo Freire Comemoração pelos 10 anos do Brasiliano
Quando Quarta-feira, às 20h30
Onde Teatro Hotel Crystal (R. Quintino Bocaiuva, 15)
Ingressos R$ 30, R$ 15 (meia-entrada) e R$ 20 (mediante doação de 1 litro de leite longa vida)
Pontos de venda - Brasiliano (R. Espírito Santo, 655) / Planetshirts (R. Piauí, 1.269 sl. 02) / Hotel Crystal (R. Quintino Bocaiuva, 15).


