Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Vicente Barreto chegou a uma fronteira tênue. Depois de um disco elogiado, ‘‘Mão Direita’’, em que demonstrava suas habilidades no violão, surge agora com ‘‘E a Turma Chegando Pra Dançar’’, uma aproximação com o pop. Ao violão e percussão acústicos, Barreto acrescentou efeitos eletrônicos. Um caminho difícil de ser trilhado. Colocar no mesmo cesto instrumental acústico e programação eletrônica sobre melodias nordestinas é um verdadeira campo minado: se os excessos não forem domados, a coisa descamba para o exagero.
Como o violonista se comportou nesta gangorra? Vicente Barreto não é nenhum novato que se deixa levar pelo sucesso fácil. Por isso, ao transitar por novos terrenos, foi cauteloso. Atrás dos arranjos e da programação eletrônica está o velho e bom violão, respaldado pela batida personalizada desenvolvida pela mão direita. Autodidata, Vicente Barreto não lê partitura mas estuda e se exercita com técnicas próprias.
A idéia, depois de um álbum mais hermético, era descontrair. Os efeitos eletrônicos são comedidos e as raízes nordestinas orientam as composições. Além de Celso Viáfora e J. C. Costa Netto, parceiros habituais, o CD traz músicas divididas com Paulinho Pedra Azul, Tadeu Mathias e Chico César.
O uso da eletrônica é comedido. Em ‘‘Diolinda’’ (Vicente Barreto e Chico César), que abre o CD, os recursos proporcionam apenas uma ambientação de segundo plano. No primeiro ficam o violão e a percussão acústica com vaso e berimbau. A programação cresce com a música, auxiliando o clima apoteótico do refrão. Não há sobras nem deslizes.
‘‘Menino Pandeiro’’ (Vicente Barreto/Paulinho Pedra Azul) traz a eletrônica mais evidente, apoiada por um pandeiro. No veio que separa eletrônico e acústico, Vicente Barreto transitou com desenvoltura. A proposta mais descontraída se afasta do comercial.
Um dos destaques é ‘‘Suinguiando o Coração’’ (Vicente Barreto/J.C. Costa Netto), com bom diálogo entre ritmo e letra. A programação é discreta e a faixa faz uma homenagem a grandes nomes do suingue: Tim Maia, Simonal, Jorge Benjor, Elza Soares e Jackson do Pandeiro.
‘‘Mundo Virtuoso’’ (Vicente Barreto/J.C.Costa Netto) é mais melancólica, enquanto ‘‘Talvez Voc꒒ (Vicente Barreto/Chico César) se aproxima do reggae. ‘‘Doente de Paixão’’ (Vicente Barreto/Celso Viáfora) é um baião completamente acústico. A salada musical volta em ‘‘O Craque’’ (Vicente Barreto/Celso Viáfora), um reggae com introdução de xote. ‘‘Campo dos Sonhos’’(Vicente Barreto) encerra o disco com um instrumental arpejado no violão.
‘‘A minha música sempre se deu em função dos ritmos. O violão é muito importante porque desde criança eu vivo com o instrumento do lado, é dele que vem toda a minha música e sem ele não tenho inspiração para compor’’ comenta o compositor, em entrevista por telefone à Folha2.
Para desviar da proposta de ‘‘Mão Direita’’, o CD anterior, Vicente Barreto conversou com o dono da Dabliú Discos e expôs suas pretensões. ‘‘Há muito tempo eu vinha na mesma direção, eu queria modificar um pouco e pegar uma nova geração de músicos’’, revela.
O contato foi estabelecido com uma turma de produtores: Jairzinho Oliveira, filho de Jair Rodrigues que foi estudar nos Estados Unidos e, segundo Barreto, ‘‘voltou uma fera’’, Wilson Simoninha de Castro, Daniel Carlomagno e o técnico João Bap.
Vicente Barreto deixou as composições para esse pessoal produzir e ficou impressionado com o resultado. ‘‘A eletrônica foi uma decisão dos meninos, eu tinha um certo receio... Foram eles que me ajudaram a compor todo o disco’’, explica.
Vicente Barreto se arriscou e acertou na mosca. Ao fugir do comodismo de um álbum predestinado aos elogios, montado sobre uma fórmula que já havia dado certo, Barreto descobriu outros caminhos e ampliou os parâmetros de sua carreira. ‘‘E a Turma Chegando Pra Dançar’’ amadurece a cada audição.
Vicente Barreto tem uma carreira expressiva, desenvolvida com parceiros como Tom Zé, Gonzaguinha, Alceu Valença, Gereba, Kapenga Ventura e outros. Nascido no interior da Bahia, carrega influências de Jackson do Pandeiro.
E como jacaré parado vira bolsa, Barreto aproveita a lacuna entre o começo do ano e o Carnaval para pensar nas faixas do próximo disco. Os shows de ‘‘E A Turma Chegando Pra Dançar’’ devem começar depois do feriado. ‘‘Já estou mexendo nas músicas do próximo, gosto de compor com muito cuidado. Não componho muito para não abusar do raciocínio, venho pensando em gravar outros ritmos’’, argumenta. Enquanto o novo álbum não sai e os shows não começam, Vicente Barreto aproveita as férias fazendo o que mais gosta, dedicando cinco horas diárias ao violão.