Um vilão muito sedutor
André Bernardo
TV Press
Na pele de Arthur, de Vila Madalena, Herson Capri interpreta mais uma vez um mau-caráter. Em entrevista o ator fala sobre seu personagem e de como conseguiu se livar de um câncer de pulmão
Boa parte dos atores afirma convictamente que os papéis de vilão são mais interessantes de fazer que os de mocinho. Afinal, os vilões têm personalidade complexa, exigem maior apuro na hora da composição e são capazes de despertar amor e ódio no telespectador. O ator Herson Capri já sabe de tudo isso. O problema é que ele já interpretou tantos maus-caracteres na tevê que se diz receoso de ficar repetitivo.
Segundo ele, o sofisticado Arthur, de Vila Madalena, nada fica a dever ao Capitão Justo, da minissérie Teresa Batista, ou ao Coronel Teodoro, de Renascer. Como ator que lida com a verdade, sei que vilão significa trabalhar com sentimentos ruins. Às vezes, chego em casa exaurido, admite.
Aos 47 anos de idade e 35 de carreira, Herson Capri ressalva que o fato de estar interpretando um vilão não prejudica o que acredita ser a melhor fase da carreira. No início do ano, ele foi escalado para interpretar Jesus de Nazaré no espetáculo A Paixão de Cristo, em Nova Jerusalém, Pernambuco. Como precisava perder 12 quilos, seguiu a recomendação dos médicos e resolveu fazer regime seguido de lipoaspiração. Durante os exames, descobriu que tinha um nódulo de câncer no pulmão esquerdo. O câncer de pulmão é o que mais mata porque trabalha quieto. Mais alguns dias e eu não teria sobrevivido, confessa.
Você costuma dizer que não morre de amores pelos papéis de vilão. Por quê?
O problema do vilão é que ele mexe com coisas ruins dentro da gente. Quando me tornei ator, a primeira coisa que aprendi foi que tenho de interpretar um papel com o máximo de veracidade. Ou seja: tenho de viver realmente o que estou interpretando. Deste modo, não tenho como não me machucar por dentro. Isso é inevitável. Não tenho como interpretar um assassino ou um estuprador e não me sentir desgastado. Não é um exercício agradável.
Dos vilões que você interpretou, qual deles é o seu favorito?
Um dos mais bacanas que fiz foi o Teodoro, de Renascer. Ele roubava a calcinha da empregada que cobiçava e fazia a própria esposa usá-la para se excitar sexualmente. Ele era tão bobo que chegava a ficar engraçado. O Benedito Ruy Barbosa me deu abertura e tentei levá-lo ao máximo para o lado do humor. Gosto de fazer vilões, mas não nego que prefiro aquele pescador de Tropicaliente. Ele vivia de short, pés descalços e o corpo queimado de sol. Gosto de fazer o mocinho porque lido com sentimentos nobres. Deste jeito, quando saio do estúdio e volto para casa, fico com a alma lavada.
Vila Madalena é a quarta novela de Walter Negrão que você faz. O que mais chama sua atenção no texto dele?
Particularmente, não gosto de violência no cinema, teatro ou tevê. Mas, pelo jeito, é isso que dá audiência. As novelas do Negrão falam justamente do contrário. Ele não demonstra qualquer outra preocupação a não ser com a simplicidade. Ele gosta de pôr em evidência os maiores valores humanos e cristãos, como a família, a amizade, o amor, a busca da felicidade... São essas coisas que tocam fundo no coração das pessoas. Principalmente, aqui no Brasil. Somos um país emotivo por natureza. Talvez por isso as novelas que ele escreve continuem fazendo sucesso.
No ano passado, você retirou um nódulo do pulmão esquerdo pouco antes de participar do espetáculo A Paixão de Cristo, em Nova Jerusalém. O que mudou na sua vida?
Na época, fiquei sabendo que o câncer de pulmão é o que mais mata porque trabalha quieto. Quando aparece, já está em fase terminal. Mas este não foi o meu caso. Se eu não tivesse feito os exames, ele teria se expandido e chegado à pleura. Tive de fazer uma lobectomia e retirar um pedaço do pulmão onde estava o nódulo. Vinte dias depois, estava em Nova Jerusalém, dependurado numa cruz e interpretando Jesus Cristo. De lá para cá, passei a ter uma vontade de viver muito grande. E, principalmente, uma vontade de viver melhor. Passei a ter uma visão mais aberta sobre as coisas e a sentir um carinho maior pelas pessoas. Passei a ver a vida com outros olhos.
Você atribui a recuperação ao fato de ter interpretado Jesus em Nova Jerusalém?
Fiz o exame antes de interpretar Jesus. Mas poderia ter sido antes de interpretar qualquer outro personagem. Não mistifico a história a esse ponto. Às vezes, me perguntam: Foi Jesus quem te salvou? Então, respondo: Indiretamente, foi. No dia seguinte, sai no jornal: Jesus me salvou. De alguma forma, o personagem de Jesus Cristo me salvou. Ou, quem sabe, o profissionalismo que tive ao querer uma barriga igual à de Jesus foi o que me salvou. Não gosto de dizer que foi Jesus especificamente. Deste jeito, a situação fica muito delicada. Quem sou eu para Jesus sair de onde está para vir aqui me salvar? Foi uma série de fatores. Entre eles, Jesus.





