Jackeline Seglin
De Londrina
Um homem com posturas radicais, que luta contra tudo o que possa ameaçar o poder. Um personagem diabólico, que só pensa no próprio progresso. O braço direito do Imperador. Tipos como o Visconde de Feitosa são comuns na carreira do ator Othon Bastos, que esteve em Londrina para o lançamento do filme ‘‘Mauá – O Imperador e o Rei’’. O papel de antagonista no longa-metragem de Sérgio Rezende vem se somar aos vários outros interpretados por Bastos ao longo dos 49 anos de profissão artística.
Nascido em Tucano, na Bahia, Othon Bastos construiu uma carreira sólida em televisão, cinema e, sobretudo, em teatro. Aos 66 anos de idade, acumula uma média de 30 filmes, 30 telenovelas e 50 peças de teatro. Na década de 60, Bastos interpretou um dos mais importantes papéis de sua carreira, o cangaceiro Corisco, de ‘‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’’.
O trabalho do ator foi marcado pela atuação de vários outros personagens, como Sandoval (da novela ‘‘Pecado Capital’’), e o caminhoneiro César (do filme ‘‘Central do Brasil’’), dois recentes papéis. Othon Bastos também emprestou sua voz para a gravação de textos de Augusto dos Anjos, que fizeram parte da coleção de CDs ‘‘Poesia Falada’’, lançada no mês passado. Em 98, o ator realizou trabalho semelhante ao narrar contos de Machado de Assis. Seus novos projetos incluem a participação em mais três longas-metragens, que serão lançados em breve.
Othon Bastos lembra de sua última passagem por Londrina, muitos anos atrás, para apresentar a montagem da peça ‘‘Um Grito Parado no Ar’’, de Gianfrancesco Guarnieri. Agora ele retornou à cidade para participar do projeto ‘‘Sessão Brasil’’, com a exibição do filme ‘‘Mauá...’’ e um debate sobre o cinema nacional. Confira a seguir trechos da entrevista concedida à Folha2 por telefone:
Como foi sua participação em ‘‘Mauá – O Imperador e o Rei’’?
Eu fui convidado pelo Sérgio Rezende para fazer o Visconde de Feitosa, que é uma reunião de vários personagens num só e que se torna o antagonista direto do Barão de Mauá (Paulo Betti). É um homem que tem um pensamento radical; não pensa no progresso do Brasil, mas no próprio progresso e da sua turma. Ele quer estar sempre por cima e luta contra tudo o que possa desestabilizar ou ameaçar o poder. E ele é o braço direito do D. Pedro II, é o homem que domina o Imperador. Um personagem diabólico, que vai tentando destruir, na cabeça do D. Pedro II, a possibilidade de apoiar Mauá. Quanto ao filme, acho da maior importância, porque conta a história de ontem e hoje. É como se nada nesse País tivesse mudado.
Você gosta de fazer o vilão nas tramas?
Não é que eu gosto. Sempre me dão o vilão para fazer.
Você acha que tem esse perfil?
Tenho cara de vilão. Aliás, é o personagem mais empolgante. O bom é você fazer a luta do bem e do mal. Você descarrega toda a sua adrenalina no mal. Faz uma terapia. Mas o Visconde de Feitosa não tem essa coisa de mal. As pessoas ficam com raiva dele porque vêem que é um cara que está tentando intervir no progresso do Brasil. A diferença é que tem a visão social e a popular.
Os seus personagens são, na maioria das vezes, vilões...
Nem sempre. Por causa do filme do Glauber (Rocha), ‘‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’’, me puseram quase sempre fazendo aquele personagem épico, característico do grande vilão ou do grande inimigo. Na verdade, até hoje eu fiz dois advogados, um médico, um padre. O resto é aquele cara que luta contra o bem, contra o galã, o lado bom. Sempre o antagonista. Isso em televisão, porque no teatro eu já fiz todos os personagens possíveis e imagináveis.
Qual foi o vilão que você mais gostou de interpretar?
Um belo vilão foi na novela ‘‘Roque Santeiro’’, o Ronaldo César, aquele jogador mau caráter. Esse do ‘‘Mauᒒ é belíssimo personagem também. Os outros todos são personagens bons, mas com caráter menor, como o estuprador que eu fiz em ‘‘Despedida de Solteiro’’, o Sandoval em ‘‘Pecado Capital’’.
‘‘Mauá...’’ é sua mais recente produção?
Não, eu tenho mais dois filmes. Um vai para o festival de Brasília. Chama-se ‘‘A Terceira Morte de Joaquim Bolívar’’, primeiro longa do Flávio Cândido. E tem o ‘‘Condenado à Liberdade’’, do Emiliano Ribeiro. Tenho também uma participação no ‘‘Villa-Lobos – Uma Vida de Paixão’’, em que eu faço o pai do compositor.
Antes disso, quais foram seus últimos trabalhos em teatro e televisão?
Na tevê fiz o ‘‘Pecado Capital’’, alguns episódios de ‘‘Você Decide’’ e participações em ‘‘Mulher’’. Em teatro, eu estava fazendo um trabalho no Forte Santa Cruz, que parou por uma questão de burocracia. A verba não saiu. Tava um espetáculo lindo. Era a história do Forte contada dramaturgicamente, com 60 atores, orquestra sinfônica, bandas e quinteto de cordas.
De tudo o que você faz – teatro, cinema e televisão – o que te dá mais prazer. Qual é a sua praia?
Teatro, indiscutivelmente. É teatro, cinema e televisão (na ordem).
Você largaria tudo pelo teatro?
Ah, sim. Teatro foi a minha formação toda. Não tenho a menor dúvida. Se houvesse a possibilidade de ter um trabalho contínuo em teatro, evidentemente que eu só faria isso. Teatro é a base de tudo. Não tem nada que se compare.
Você vê algo de depreciativo no trabalho de televisão?
Absolutamente. É um ramo de trabalho. Da mesma forma que se faz cinema, um show. Você pode fazer grandes trabalhos na televisão. Não tem nada de depreciativo nisso. Ao contrário. É um meio de ser mais popular ainda. Você pega televisão como um caminho. Tem pessoas que só gostam de fazer tevê e eu as respeito profundamente.
Quais foram os trabalhos mais importantes de sua carreira?
Tem vários. Tem ‘‘Um Grito Parado no Ar’’, ‘‘Ponto de Partida’’, ‘‘Dueto para um Só’’, tudo isso em teatro. E filmes como ‘‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’’, ‘‘São Bernardo’’ e ‘‘Os Sermões’’.O ator Othon Bastos, que esteve em Londrina para o lançamento do filme ‘‘Mauᒒ, fala dos personagens que viveu no teatro, no cinema e na TV
Agência EstadoOthon Bastos: ‘‘Tenho cara de vilão que considero o personagem mais empolgante’’ReproduçãoOthon Bastos como o cangaceiro Corisco em ‘‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’’ (acima), com Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira em ‘‘Central do Brasil’’ e como o Visconde de Feitosa no filme ‘‘Mauᒒ junto com Paulo Betti e Rodrigo Penna

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