Para que seu personagem Joaquim de ‘‘O Cravo e a Rosa’’ não caísse no estereótipo, Carlos Vereza foi buscar inspiração em vilões atrapalhados como o Capitão Gancho
Carlos Vereza é o tipo do ator que não costuma adjetivar muito seus personagens. ‘‘Sempre gosto de provocar contradições para não deixá-los maquineístas’’, explica o ator de 60 anos. Para interpretar o vilão Joaquim na bem-sucedida novela ‘‘O Cravo e A Rosa’’, o ator buscou no Capitão Gancho – o arquiinimigo de Peter Pan – e também nos bandidos das chanchadas da Atlântida algumas referências. Adepto de uma rígida disciplina profissional, quando não está nos estúdios do Projac – tem gravado uma média de 20 cenas por dias –, Vereza está estudando o texto em seu apartamento na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. ‘‘A concentração e a dedicação são as maiores virtudes para o êxito de uma profissão’’, ensina o ator com 41 anos de carreira.
A boa repercussão de Joaquim faz com que Vereza se considere totalmente recuperado da depressão profunda que quase interrompeu sua carreira. Tudo começou em um acidente ocorrido quando participava de uma gravação do extinto seriado ‘‘Delegacia de Mulher’’, em 1990. O ator foi atingido por uma bala de festim no ouvido porque, por engano, colocaram muita pólvora no revólver. ‘‘Fiquei mais de dois anos fora do ar e sem saber quem eu era’’, recorda.
Assim que terminar os trabalhos de ‘‘O Cravo e A Rosa’’, Vereza deve retomar um projeto antigo. O ex-militante do Partido Comunista – chegou a ser torturado e preso na época da Ditadura Militar – , pretende escrever, dirigir e atuar na peça ‘‘Esse Programa Pertence a Voc꒒. O espetáculo é 70% autobiográfico. ‘‘É uma forma de também relembrar um pouco de minha vida’’, antecipa o ator.
Em ‘‘O Cravo e A Rosa’’, você volta a fazer um vilão. Você tem predileção por este tipo de personagem?
Alguém tem de fazer o vilão nas novelas. Mas eu não costumo adjetivar os meus personagens. O que acontece é que os vilões acabam despertando sentimentos diferentes nos atores. E para fazer o chamado vilão numa comédia romântica, como no caso de ‘‘O Cravo e A Rosa’’, o ator tem que ter uma levada, uma abertura para o humor. E na verdade, mais do que um vilão, o Joaquim é um grande pai. O problema do Joaquim é que ele achava que o Julião Petruchio (Eduardo Moscovis) havia feito algo de mal para filha dele. Aí, talvez, esteja explicada a razão para a vilania dele.
Deixar o personagem um pouco engraçado como você vem fazendo com o Joaquim é uma forma de conquistar o público?
Quando comecei a ler a história antes de gravar, pensei no Capitão Gancho. Porque ele é um vilão engraçado. Também imaginei aqueles vilões das chanchadas da Atlântida. Sempre gosto de provocar contradições em meus personagens para não ficar maniqueísta. Todo mundo tem defeitos e qualidades. Com o Joaquim não é diferente. Eu sempre tento fazer com que o público seja um co-autor dos meus personagens. E com isso, fica fácil de descobrir o jeito dele. O Joaquim é um personagem que nunca muda de roupa. Este detalhe foi uma sugestão minha que a direção acabou aceitando. Sempre estou com aquele sobretudo que dá um peso interessante ao personagem. Isto cria um tipo de código, porque Petruchio também não troca de roupa. Então, o protagonista e o antagonista acabam se identificando de alguma forma.
Se comenta muito que o formato das telenovelas esteja ultrapassado, principalmente por causa de sua longa duração. Com 41 anos de carreira, qual sua opinião?
A novela já está integrada à cultura brasileira. Então, acabou gerando uma indústria muito grande no Brasil. E a indústria gera a qualidade. Só que a qualidade acaba gerando a quantidade. O que acontece é que a televisão brasileira acabou adquirindo uma qualidade no ponto de vista de interpretação, cenografia, direção e figurinos, que, sem nenhum ufanismo, a gente não encontra em nenhum lugar do resto do mundo. O Brasil é disparadamente o maior produtor de novelas do mundo.
E mesmo as novelas brasileiras tendo todo este know-how, você é a favor a algum tipo de mudança?
Eu comparo as novelas a um trem-bala europeu. O trem-bala você entra e vai embora. Não pára mais. Acho uma utopia pensar numa novela com apenas 100 capítulos. Os gastos são altíssimos. Para uma emissora recuperar o que investiu imagino que o retorno só acontece a partir do terceiro mês de produção. Então, como é que uma novela vai ter apenas três meses? Já a minissérie é um risco calculado. É um cartão de visitas da emissora. Tem um lucro, mas é um lucro modesto em relação a uma novela. Já uma novela ter mais de 200 capítulos acho um exagero e por mais que a história tenha gancho, ela vai acabar ficando repetitiva. A história fica previsível.
‘‘O Cravo e A Rosa’’ tinha previsão de ter 107 capítulos e foi esticada para 180. O que você achou disso?
Acho que não vai acabar saturando o público porque o autor Walcyr Carrasco e seus colaboradores estão tendo uma capacidade de criar ganchos que só me lembro de ter visto igual a Janete Clair. A história da novela está bem amarrada e vai terminar no tempo ideal. Toda equipe está com objetivo de fazer um bom trabalho.
Há quase dez anos, você foi atingido por uma bala de festim durante a gravação do extinto seriado ‘‘Delegacia de Mulher’’. Ainda guarda algum trauma do acidente?
Não, pois consegui me recuperar espiritualmente também. Tudo porque depois de percorrer várias clínicas, acabei sendo curando pelo Lar do Frei Luiz, no Rio de Janeiro, onde sou voluntário até hoje. Foi o pior momento da minha vida. Por causa de um medíocre seriado, tive labirintite e depressão profunda. Eu nem sabia quem eu era. O maior sonho do maníaco depressivo é morrer. Ele só lê coluna necrológica. A labirintite me impossibilitou de trabalhar. E uma referência de minha vida é ser ator. Quando vi que não podia mais atuar, quase pirei.
E onde você buscou motivação para voltar a atuar?
Na minha própria profissão. O dia em que não encontrar mais motivação para ser ator, vou fazer concurso para trabalhar no Banerj ou no Banco do Brasil. Amo o que faço. Minha profissão é uma forma de sair do cinzento cotidiano. A arte é uma das possibilidades do êxtase e de você quebrar o cotidiano. Ela é uma válvula que nos permite sair do previsível.

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