UM VAMPIRO PÓS-MODERNO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de novembro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>De Londrina - Especial para a Folha2 
Friedrich Wilhelm Murnau, cineasta alemão único e incomparável, mestre do cinema mudo dos anos 20, figura de vanguarda na história do cinema e autor, entre outros, de ''Fausto'', ''Aurora'' e do incrível ''A Ultima Gargalhada'', realiza entre 1921 e 22 a célebre obra-prima ''Nosferatu'', uma autêntica sinfonia expressionista. Adaptação ilegal do ''Drácula'' de Bram Stoker a viúva do escritor não quis vender a Murnau os direitos do livro , o filme é considerado até hoje um dos grandes (se não o maior) momentos do vampirismo cinematográfico. Ao se recusar a prática de um presunçoso maniqueísmo que em geral habita o gênero, ''Nosferatu'' se distingue de outros filmes de vampiro ao não apresentar uma criatura burguesa e maliciosa na tradição do cristianismo judeu, mas um ser torturado, enclausurado entre a condição de agressor e de vítima dos homens. Ele é o simulacro humano do expressionismo, condenado à solidão num solar em ruínas. Vítima de seu desejo insaciável, permanece aprisionado num corpo em lenta corrosão, transitando para o mundo dos objetos. Pois foi deste filme que o cineasta americano Edmund Elias Merhige retirou ''A Sombra do Vampiro'' (veja a programação de cinema na página 5), obra ao mesmo tempo singular e estranha, na qual as filmagens de ''Nosferatu'' se transformam em ficção onde realidade e mito se confrontam, onde os papéis e os rostos se misturam à realidade.
O obsessivo Murnau (John Malkovich) quer fazer o filme mais autêntico jamais visto. Para isso, além de rodar pela Europa Oriental, domicílio original do vampiro, contrata para o papel de conde Orlok o misterioso ator Max Schreck (Willem Dafoe), um homem cujo estranho comportamento em parte se explica pelas lições de interpretação que recebeu do mestre Stanilavski em pessoa. Mas já no primeiro dia de filmagem o diretor de fotografia Wolfgang Muller desmaia misteriosamente e é mandado a Berlim. Enquanto não se filma, o comportamento de Schreck torna-se ainda mais sinistro, e os ataques a membros da equipe continuam. Empolgado com a possibilidade de contar com um verdadeiro vampiro interpretando Nosferatu, em troca de uma grande interpretação, Murnau promete ao ator nada menos que o imaculado pescoço da estrela do filme, Greta (Catherine McCormack), quando as filmagens forem concluídas.
Partindo da possibilidade evidentemente fictícia mas muito atraente em termos de mitologia cinematográfica, o roteirista Steven Katz elaborou uma trama em que pretendeu acentuar o fato de que o filme fosse incrivelmente realista, a ponto de que se pudesse estar diante de um antigo documentário sobre um vampiro. ''Foi quando me ocorreu a idéia de que o ator que fazia no filme o papel do vampiro fosse de fato um ser sobrenatural'', disse Katz durante entrevista coletiva ano passado no Festival de Cannes, onde o filme foi apresentado com enorme sucesso na Quinzena dos Realizadores, diante de seu melhor e mais específico público. O roteiro pronto foi mostrado a Nicolas Cage, fanático pela história do cinema mudo. Nem houve conversa: a porção cabeça do ator, com evidentes vestígios do DNA do tio Francis Ford Coppola, decidiu produzir ''The Shadow of the Vampire''.
Embora na vertente ''cinema dentro do cinema'', é perigoso utilizar aqui a palavra recriação. Poderia ser utilizada, sim, mas por trás do filme se esconde algo bem maior, uma trama de ficção que tem muito a ver com o ato de criação, e que não é nada mais que uma ficção que se transforma em realidade dentro da mesma filmagem. Como todos os grandes gênios, o diretor de ''Nosferatu'' queria extrair o melhor daqueles que com ele trabalhavam, e isto é o que ''A Sombra do Vampiro'' pretende demonstrar. O filme, em releitura pós-moderna, sustenta que Wilhelm Murnau deve convencer Schreck a se empenhar ao máximo, chegando ao absurdo de entregar a ele a diva Greta Schroeder em corpo e principalmente sangue. A situação, de resto, reflete um dado real: Murnau foi marginalizado pela família por causa de seu homossexualismo, e a aposta faustiana e atrevida do roteiro a venda da alma ao Diabo em troca de autenticidade nas filmagens é uma suposição engenhosa e criativa.
Escapando de qualquer frenesi vampiresco tão ao gosto das revisitas contemporâneas, inclusive mantendo prudente distância da emoção desmedida, E. Mehrige fez um filme belo, extremamente cuidadoso, original e pessoal. Mas o resultado talvez causasse menos impacto não fossem as duas recriações centrais, a refinada composição de Malkovich como Murnau, e a atração mais poderosa, Willem Dafoe como Schreck-Orlock.
Não apenas surge graças a uma estupenda maquiagem muito parecido, mas consegue ir mais além, adiante até do talento do próprio Schreck. A rigor, este aparecia em poucos planos de ''Nosferatu'', e além de sua máscara inesquecível não tinha outras oportunidades de mostrar-se expressivo. Era a figura oposta aos Dráculas másculos compostos por Bela Lugosi e Christopher Lee: rígido, delgado ao extremo, com cara de morto-vivo. Dafoe reforça em cada gesto a crueldade e a tortura interior do vampiro romântico imaginado por Stoker, capaz de se apaixonar, de unir amor e morte e até de introduzir toques de humor.
Para o grande público, composto por espectadores comuns, ''A Sombra do Vampiro'' será uma simpática curiosidade. E muito mais para os cinéfilos, que se reencontrarão com a magia perdida de uma era do cinema, quando silêncio era ouro e o domínio exclusivo e soberano era da imagem.


