Um vampiro à luz do dia
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de junho de 1999
Luiz Claudio Oliveira 
Vampiros, todos sabem, não suportam a luz do sol. São animais noturnos, arredios e perigosos. O fotógrafo Nani Góis, no entanto, fotografou um, que não é um vampiro qualquer, em plena luz do dia. Ele é Dalton Trevisan, o mais conhecido vampiro de Curitiba. Um símbolo. Maior até que a cidade. Pois este ser hematófago e filológico infiltrava-se entre os transeuntes no Passeio Público como se fosse mais um inocente.
O que, na verdade, o fotógrafo captou? Um simples passeio? Uma andadinha para limpar as coronárias carentes? Ou uma entrada dissimulada no mundo e submundo das pessoas que frequentam aquele belo pedaço de Curitiba? Por ali passam prostitutas, desempregados, velhos, estudantes, normalistas do Colégio Estadual e atletas.
Igual a todas figuras míticas, que sempre recebem milhares de histórias que misturam a verdade e a invenção, este ser da literatura curitibana não é diferente. Histórias sempre existem. Dentre elas, a de que frequenta locais determinados, com os ouvidos sempre atentos para captar inspiração para a literatura mais enxuta e exata do País. O Passeio Público seria um desses locais.
Mas isso não pode ser levado muito a sério, pois o vampiro também costuma frequentar locais triviais e inocentes como a Confeitaria Schaffer, a livraria do Chaim, e até, vejam só, as videolocadoras Blockbuster e Vídeo 1. Será que lá também vai atrás de suas histórias?
Dalton Trevisan não gosta de ser fotografado e muito menos de dar entrevistas. Prefere falar ao público pela obra. Apesar de não viver escondido, gosta de ser anônimo. Só mesmo um olhar atento e oportuno como o de Nani Góis para conseguir captar um vampiro dessa qualidade à luz do dia em um passeio prosaico em um parque central de Curitiba. E o fotógrafo nem estava ali no papel de caça-vampiros, como ele mesmo explica:
- Eu estava fotografando o Passeio Público para a Prefeitura de Curitiba e vi aquele senhor se aproximando, passando pela frente da minha máquina. Quando ele chegou perto, vi que era o Dalton Trevisan, mas não fotografei. Aí ele deu outra volta e passou pelo mesmo lugar, então não resisti...


