Um universo de cristal
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de abril de 2002
Zeca Corrêa Leite Equipe da Folha 
Curitiba A vastidão gelada do Pólo Sul se perde além do horizonte; é como se um planeta inteiro fosse coberto pela neve. O cineasta Frederico Fulgraf, feito um boêmio às avessas, atravessou as madrugadas de intenso frio buscando imagens que traduzissem essa imensidão, quando lá esteve anos atrás. Depois de esperar dois anos pela finalização do trabalho, chega finalmente às telas Fogo Sobre Cristal Um Diário Antártico. O filme de 60 minutos será projetado pela primeira vez nesta noite na Cinemateca de Curitiba. A primeira sessão começa às 20 horas, a segunda às 21h15.
Fullgraf atenta para o aspecto jornalístico da obra, embora carregado de poesia, poesia essa que é a interação do silêncio com a cor e a música de Harry Crowl. Afirma o cineasta que de todos os documentários que ele viu sobre a Antártica, este é o que detém uma profusão de cores ainda não captadas pelas câmaras. Para isso, valeram suas andanças noturnas. Um espetáculo particular é o nascimento de um novo dia, com o sol rompendo no horizonte.
A cena inspirou o título do filme. Fogo Sobre Cristal seria o sol projetando sua luz na alvura do gelo. Mesmo no lusco-fusco os icebergues têm um grafite, um verde, um azul indescritíveis. O subtítulo está ligado a algo mais íntimo. Fugi à narrativa do documentário; este trabalho tem uma coisa mais subjetiva, está montado na forma de um diário. A narração por si só é subjetiva, irônica. Há um primeiro plano de reportagem, tendo como pano de fundo o cenário. E no segundo plano vem o silêncio, a solidão, a sensação da pequenez humana, continua.
As geleiras que desafiavam a eternidade, começam a dar sinais de sua finitude, com tímidas plantas surgindo ali. Mau sinal. Aquilo que os cientistas vêm alertando, sobre o aquecimento polar, Fullgaf viu in loco três anos atrás. Em alguns momentos os registros do Pólo Sul, feitos com uma câmara digital de ponta, são fundidos às imagens em branco-e-preto da expedição de Sir Ernest Shackleton, de 1914.
O antigo e o moderno se juntam para mostrar ao espectador que mais de 80 anos depois dessa viagem, um novo grupo de exploradores realizava o mesmo caminho, como uma repetição da história. O documentarista foi o australiano Frank Hurley, um dos integrantes da comitiva a bordo do navio Endurance. Foi uma dura aventura.
Em meados de novembro de 1915, o navio sofreu uma avaria e estava semiafundado quando Hurley jogou-se nas águas geladas que o invadiam e salvou as latas de filmes. Durante um ano os homens vagaram sem destino, procurando uma saída, até serem resgatados. E assim a posteridade pôde ter contato com as cenas da expedição. Dessas, algumas estão em Fogo Sobre Cristal.
Lançamento do filme Fogo Sobre Cristal, de Frederico Fulgraf, hoje, com sessões às 20 horas e 21h15, na Cinemateca de Curitiba (Rua Carlos Cavalcanti, 1174, fone 322-1525, ramal 2252). Entrada franca.


