Um último tango fim de século
Filme franco-belga surpreende com ternura antipornô em Veneza. E Jane Campion não repete a boa forma de O Piano
France PresseKate Winslet: depois do fenômeno Titanic, atriz aparece em filme que trata de sexo e ascetismoFrance PresseO ator Harvey Keitel, Jane Campion, diretora de Holy Smoke, e a atriz Kate Winslet em Veneza
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Veneza para a Folha 2
Os jornalistas italianos reclamam dos filmes italianos. Têm razão. A imprensa em geral, da casa e estrangeira, não tem muitas opções para fazer xixi banheiros poucos e sempre com longas filas , restaurantes e bares no Lido também em número insuficiente. Não há sequer um insípido big mac como derradeira alternativa burocrática para iludir a fome. Mas infra-estrutura é matéria para ulteriores considerações. Volto ao assunto, oportunamente.
Os belgas estão chegando. E sem alarde. Em maio, discretamente correndo por fora em Cannes, acabaram levando a Palma de Ouro com o despretensioso Rosetta. Agora, o jovem diretor Fréderic Fontayne traz a Veneza seu segundo longa, um trabalho com dupla repercussão. A primeira, óbvia e até certo ponto negativa, ajudou a construir a reputação (até agora falsa) de uma mostra em explícito flerte com o pornográfico. O filme? Uma Ligação Pornográfica. A segunda é a provocada pela própria obra em si, uma agridoce história de amor fin-de-siScle. Um pouco mais edulcorado, com firulas formais e ensopado em música e lágrimas e teríamos um autêntico produto chez Lelouch, com direito inclusive à sequela uma ligação pornográfica 20 anos depois. Mas Fonteyne evita a fatuidade e outras armadilhas do melô tipo hasards et coincidences e assina um filme quase extra-classe, uma pequena jóia talhada com precisão afetiva e lapidada com a delicadeza de um ourives.
Com nada de escabroso, Une Liaison Pornographique se assemelha na superfície ao Último Tango, que Bernardo Bertolucci realizou há 27 anos. Mas apenas na superfície. Um homem e uma mulher - nenhum nome - revelam para um entrevistador atrás da câmera as respectivas versões de uma história que começou há tempos. Como começaram a se encontrar através de um anúncio via Internet. Como decidiram basear a relação apenas no sexo, sem revelações sobre as próprias existências: endereço, trabalho, vínculos, presentes e passados. E como acabaram se apaixonando. Os dois relatos são construídos de pequenas lembranças, omissões, arrependimentos. E onde estaria o pornográfico? O filme, de maneira inteligente e sutil, leva o espectador a considerar uma estranha forma de porno-oralidade. Através da palavra, dirigida diretamente a alguém - o interlocutor/provocador por trás da câmera - os dois personagens têm um desejo muito forte de contar uma coisa íntima como o amor, a paixão. Contar a história a alguém é não apenas revivê-la como tentar se liberar de um fantasma sexual. A recordação oscila entre o prazeroso e doloroso. O filme não tem nenhuma sequência hardcore, e Fonteyne optou por um roteiro pudico. E com as interpretações de Nathalye Baye e Sergi Lopez, o festival ganha seus primeiros candidatos a Coppa Volpi para melhor atriz e ator.
Kate Winslet, agora usufruindo status de estrela via efeito Titanic, e Harvey Keitel, espécie de móvel & utensílio circulando de festival em festival, hoje ator-instituição amado e requisitado pela inteligentzia, dividiram com australiana Jane Campion as atenções na mais concorrida coletiva. Holy Smoke, o filme que a diretora de O Piano trouxe a Veneza, é uma comédia dramática que, esforços e talentos à parte, não tem estôfo suficiente para abocanhar um Leão. Melhor o contrário.
Em suma, um estudo irregular sobre o conflito atemporal entre carne e espírito, entre matéria e transcendentalidade, entre sexo e ascetismo. Kate Winslet é Ruth, jovem australiana em jornada iniciática na India, onde busca respostas seguindo preceitos místicos. A entrega a uma nova e exótica religiosidade preocupa a família, que acaba por trazer a garota de volta. E para tentar uma readaptação, é contratado um investigador americano, P.J. (Keitel) um tipo bizarro especialista em recuperar jovens através de um processo peculiar, uma terapia descondicionante. Mas o tratamento de três dias não se revela tão simples quanto parecia, especialmente para o investigador, apanhado na turbulência entre vontade e tentação. A proposta manifesta de Jane Campion e de sua irmã e co-roteirista, Anna, defendida na coletiva com bravura e simpatia, não se resolve a contento no filme. Segundo ela, Holy Smoke pretende demonstrar que uma inteira experiência espiritual não é tão-somente uma escalada com um ponto de chegada. O que conta na busca é o percurso. A verdade está na contínua exploração. A experiência dura toda uma vida disse ela.





