Um trilher existencial
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sexta-feira, 28 de novembro de 1997
Edmundo Inagaki Curitiba 
Roberto Retenbach/DivulgaçãoCena de Killer Disney, montagem do grupo Os SatyrosUma grande metáfora sobre a vida, com inúmeras leituras possíveis. A definição do diretor Marcelo Marchioro para o espetáculo Killer Disney (originalmente The Pitchfork Disney), do cultuado escritor, cineasta, roteirista e artista plástico inglês Philip Redley, que a Companhia de Teatro Os Satyros estréia hoje, às 24 horas, no miniauditório do Teatro Guaíra, decifra parte do enigma engendrado em torno dos irmãos gêmeos Presley e Haley Stray - personagens centrais desse drama psicológico.
Aos 28 anos de idade e sem qualquer experiência de vida, senão os traumas da infância da qual resistem sair, Presley e Haley (sobre)vivem num universo paralelo, escondidos do mundo. O cenário é claustrofóbico: trancados no apartamento sujo, os dois passam o dia contando histórias de um passado idealizado com seus pais e trocando impressões diante da paisagem desoladora, pós-apocalíptica, arrasada por uma hecatombe nuclear (fruto de um sonho de Presley).
Unidos pelo medo, os gêmeos dormem e comem chocolate - de avelãs com frutas, com laranja, flocos de arroz... Uma noite, enquanto Haley dorme embalada por calmantes, Presley deixa entrar um estranho: Cosmo Disney. E com a chegada do segundo visitante - Pitchfork Cavalier, o thriller existencial de Ridley se torna ainda mais anárquico, conduzindo as teorias sobre busca de identidade, sociabilidade e outras necessidades do ser humano para muito além das fronteiras da razão.
Encantado com o texto do polivalente artista inglês, o diretor Marcelo Marchioro classifica o espetáculo como um teorema. Essa não vida dos personagens principais, que de repente pode até ser um só, permite muitas outras leituras. É uma peça que não se autodefine. Essa imprecisão, essa abertura, é justamente o grande mérito de Killer Disney. É um questionamento sobre o homem, com começo, meio e vários fins.
A tradução do texto para o português é do ator e diretor lusitano Carlos Manoel, que até recentemente trabalhou com Os Satyros, em Curitiba.
O autorPhilip Ridley nasceu no East End, em Londres, onde continua vivendo e trabalhando. Estudou pintura na Saint Martins School of Art e seu trabalho foi amplamente exibido através da Europa. Autor de quatro romances e quatro novelas para crianças, desde 1988 tem sido agraciado com diversos prêmios literários. Roteirista do filme Os Implacáveis Krays (90), vencedor do melhor filme inglês daquele ano. Roteirista e diretor de Reflexo do Mal (90), exibido na Mostra Intercional de Cinema de São Paulo. Seu segundo filme, The Passion of Darkly Noon (95), está disponível em vídeo no Brasil com o título Paixões na Floresta.
Para teatro, além de The Pitchfork Disney - aqui Killer Disney, Philip Ridley escreveu outras duas peças, The Fastest Clock in the Universe (92) e Ghost from a Perfect Place (94). Atualmente, seu trabalho está traduzido e representado em 16 línguas. O autor é uma referência importante na moderna dramaturgia britânica.
Killer Disney estreou em Londres em 91, sendo esta sua primeira montagem no Brasil.
Killer Disney - de Philipe Ridley, com Os Satyros. Direção: Marcelo Marchioro. No miniauditório do Teatro Guaíra, até 7 de dezembro. De quinta a sábado, às 24 horas; domingos às 18 horas.
Ingressos R$ 15,00; R$ 10,00 (com bônus) e R$ 5,00 (estudantes e classe artística).


