São Paulo, 22 (AE) - Quando morreu, há pouco mais de um ano, Akira Kurosawa deixou inacabado o roteiro de um filme que pretendia realizar. O velho mestre de 88 anos havia escrito cerca de 80% do roteiro de "Depois da Chuva". O roteiro foi concluído por Takashi Koizumi, segundo indicações que ouviu do próprio Kurosawa. Koizumi está em São Paulo. Veio para a exibição de "Depois da Chuva" na 23ª Mostra.
Uma história de samurais, como Kurosawa gostava. Quando um rio transborda por causa da chuva, viajantes são obrigados a parar numa pousada. Para passar o tempo, resolvem organizar uma festa. Do grupo participam um ronin pobre e sua mulher. Em busca de apoio, um espadachim, Ihei, busca o castelo mais próximo. Ao fim de uma série de incidentes, ele mostra sua habilidade com a espada e é convidado para ser o mestre de esgrima do feudo. Mas Ihei não tem a conduta de um samurai. O novo posto lhe vale a inimizade dos integrantes do grupo.
Depois dos amplos painéis históricos de Kagemusha, a Sombra do Samurai e Ran, Kurosawa queria voltar a um tipo mais simples de narrativa de ação. O filme é permeado de humor. "É uma coisa que já estava no original, não inventei nada", diz Koizumi. Ele acrescenta que quis fazer o filme como uma homenagem ao gênio de Kurosawa. "Mas não pensei em como ele o teria feito; fiz da minha maneira, que é a única forma de trabalhar", define.
Kurosawa sensei. Chamado de imperador do cinema japonês, ele era reverenciado como mestre (sensei). Koizumi assume-se como discípulo. Durante 28 anos teve o privilégio de conviver com o grande artista. Acha que foi um privilégio. "Kurosawa era uma pessoa maravilhosa, deu-me lições de vida, mais do que de cinema", diz.
Koizumi tinha 26 anos (nasceu em Mito, em 1944) quando conheceu Kurosawa, no começo dos anos 70. O mestre rodava Dodeskaden. Koizumi, recém-formado como estudante de cinema, enviou um roteiro à apreciação do mestre. Kurosawa chamou-o para conversar. Dodeskaden foi o primeiro filme colorido do cineasta. Ele investiu dinheiro do próprio bolso. A rodagem foi tranquila, apenas 28 dias. Os problemas vieram depois. O filme teve críticas péssimas, o estúdio Daiei, onde Kurosawa rodou Rashomon
fechou. O cineasta ficou tão deprimido que tentou o suicídio, cortando a garganta com uma navalha.
O discípulo conta essas histórias de cabeça baixa. Foi uma época dura da vida do mestre. Ele a superou ao ir rodar Dersu Uzala na União Soviética. O filme teve o efeito de um renascimento. Kurosawa recuperou o sucesso e a auto-estima com seu poema ecológico. O filme ganhou o Oscar de Hollywood. Veio depois Kagesmusha, no qual Koizumi foi assistente de direção de Kurosawa.
Ele acompanhou todo o processo de criação, do roteiro à edição final. Pôde ver a plenitude do gênio em ação. Houve um momento em que o filme quase não saiu, por falta de recursos. Kurosawa começou a desenhar os planos. Queria deixar um registro
caso o filme não fosse realizado. Terminou usando os desenhos como storyboard. Passou a desenhar os filmes seguintes, antes de rodá-los.
Era um grande artista, um homem de cultura superior, Koizumi observa. Mas, no Japão, embora fosse chamado de Imperador, não tinha muito apoio para realizar seus filmes. Esse apoio, Kurosawa encontrou-o no exterior, na França e nos Estados Unidos, onde era reverenciado como sensei por figuras do porte de Francis Ford Coppola e George Lucas, que investiram dinheiro deles para que o cineasta terminasse Kagemusha.
Foram 28 anos de convivência. Um aprendizado, diz Koizumi. Ele não sabe o que isto significou para Kurosawa, mas para ele, com certeza, foi fundamental. A grande lição que o mestre lhe deixou foi - a vida é mais importante que a arte. Aprenda a viver, a observar, ele dizia, e você aprenderá a fazer filmes, a dar vida a outras pessoas na tela. Koizumi seguiu a lição. Acredita que honrou a tradição de Kurosawa. Depois da Chuva ainda não estreou no Japão, mas já foi exibido em sessões especiais para críticos, amigos e colaboradores de Kurosawa. Todos foram unânimes em dizer que Koizumi é o herdeiro de Kurosawa.
Ele recebeu uma proposta para dirigir os roteiros que o cineasta deixou prontos, antes de morrer. Não sabe se vai aceitar. Deve muito ao artista e ao homem Kurosawa, mas quer seguir o próprio caminho. Acha que os méritos de Depois da Chuva não são só dele. "Filmei com uma equipe de colaboradores de Kurosawa; ele era nosso assunto preferido, durante toda a rodagem." Todos deram o melhor de si para honrar o mestre. Kurosawa sensei. Como fica o cinema japonês depois dele? "Nunca pensei no assunto porque este tempo todo estava mais interessado em usufruir a amizade e presença de Kurosawa, mas antes de morrer ele me disse que pensasse no cinema japonês; é o que pretendo fazer."

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