Antônio Mariano Júnior
De Londrina
Tudo começou com um trio composto de voz, violão e violoncelo. Mas em 95, por força de um convite para se apresentar num tributo a Tom Jobim, em Nova York, mais um músico acabou por incorpora-se ao espírito da coisa. E deu no que deu. Ou seja, surgia o Quarteto Jobim-Morelenbaum formado por Paulo Jobim (violão), Daniel Jobim (piano), Jaques Morelenbaum (violoncelo) e Paula Morelenbaum (voz). Pois bem, quatro anos depois da homenagem ao maestro soberano, e outras tantas apresentações pelo Brasil, Europa e Estados Unidos, os quatro músicos – pai e filho (no caso Paulo e Daniel), marido e mulher (Jaques e Paula) – chegam ao primeiro disco.
Chama-se ‘‘Quarteto Jobim-Morelenbaum’’ e está sendo lançado pela gravadora Velas e distribuído nacionalmente pela Universal Music. O repertório congrega basicamente composições de Tom Jobim. Basicamente porque das 13 faixas, uma não foi assinada pelo compositor – trata-se da, aqui, instrumental ‘‘Mantiqueira Range’’ (Paulo Jobim e Ronaldo Bastos).
No entanto, o trabalho pode ser considerado um tributo a Tom Jobim. Só que desta vez as obras de Tom estão mais do que em boas mãos; estão sendo executadas por quem tinha muito mais que afinidade musical com o homenageado. ‘‘Somos profundos conhecedores da idéia musical de Tom pelo fato da convivência e pelos laços familiares e de amizade’’– afirmou Jaques Morelenbaum, em entrevista à Folha2.
E ele tem toda a razão. Com exceção de Daniel, os demais integrantes do quarteto faziam parte do grupo que acompanhava Tom para cima e para baixo desse mundão cheio de bossa. Foram 10 anos de convivência quase que diária. O entrosamento é tanto que não são precisos intermináveis ensaios para captar a essência caudalosa e harmoniosa da obra de Antonio Carlos Jobim – cujo legado é composto por cerca de 500 canções.
Pode-se dizer que as idéias estão alinhadas de um jeito que para executar essa ou aquela peça ‘‘jobiniana’’ basta utilizar o instinto. ‘‘Cada um organiza o que vai fazer na música e, eventualmente, a gente conversa sobre um detalhe ou outro’’– comenta Morelenbaum.
As canções selecionadas para ‘‘Quarteto Jobim-Morelenbaum’’ foram feitas por Tom (só e em parceria) antes, durante e depois da Bossa Nova. Lá estão canções conhecidíssimas como a bossanovística ‘‘Ela É Carioca’’ (feita com Vinícius de Moraes) e outras nem tanto – é o caso de ‘‘Eu e o Meu Amor’’ (feita para a trilha sonora de ‘‘Orfeu da Conceição’’) e ‘‘O Boto’’ (da fase nacionalista, a qual Tom foi buscar inspiração em seu mestre, Villa-Lobos).
Aliás, essa última música é um dos destaques do CD, feita em parceria com Jararaca. A gravação só encontra paralelo no registro fenomenal feito por Elis Regina em seu ‘‘Transversal do Tempo’’ (78). É sucedida, quase unida (como co-irmã) a ‘‘Mantiqueira Range’’, um brilhante momento instrumental.
O disco abre com ‘‘Água de Beber’’ (Tom e Vinícius), com direito a acordes incidentais de ‘‘Estrada do Sol’’ e ‘‘Eu Te Amo’’ (feitas, respectivamente, com Dolores Duran e Chico Buarque). E só o começo. ‘‘Felicidade’’, outra faixa admirável, começa com Jaques extraindo acordes melancólicos de seu violoncelo. Paula – uma excelente cantora– reparte os vocais com Daniel Jobim – que não bastasse o timbre semelhante, herdou do avô os maneirismos vocais.
Enfim, o disco inteiro é bonito pelo fato de o quarteto imprimir personalidade até em canções saturadas como, por exemplo, ‘‘Desafinado’’ (composta com Newton Mendonça). Como não se ouvia há muito tempo – e para muitos e muitos nunca existiu – esse clássico da Bossa Nova vem agora com os versos originais subtraídos por intérpretes – inclusive o próprio Tom – no decorrer do tempo. ‘‘Quarteto Jobim-Morelenbaum’’ é, sobretudo, um tributo à boa música e à inteligência musical brasileira.

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