Com a saturação da música sertaneja e do pagode, as gravadoras já vinham sinalizando desde o ano passado com a nova moda – o forró. A safra começa a despejar os grupos emergentes, e não dá para esperar muita coisa do que virá. Porém, a união de músicos de regiões aleatórias gerou o Baião D4, que acaba de gravar pela Paradoxx Music ‘‘Onde a Onça Bebe Água’’. Em qualidade estão a anos-luz do que tem aparecido por aí.
Apadrinhados por Chico César, o que já é uma referência a se levar em conta, os moços fizeram um disco delicioso, poético, delicado. O regionalismo – que o torna universal – está muito presente não só na instrumentação e nas melodias, como nas letras. É um universo de simplicidade comovente, sutil, por vezes ingênuo e muito distante do mau gosto que ainda impera nas paradas com a breguice temática dos motéis e afins de pagodeiros e sertanejos.
Fora desse balaio, o Baião D4 propicia cenários de cores exuberantes, paixões contadas na leveza de cirandas, alegria brotando de todos os lados, vontade de dançar. Pode-se dizer que é um disco solar, litorâneo. Tem mamão papaia, bem-te-vi, sabiá de laranjeira, internet, celular, mulher faceira, creme rinse, Berenice, coco – a dança –, brisa, saudade e Rosa Linda. E por aí vai.
À beleza do repertório soma-se a interpretação segura do vocalista Tiago Sena. Não é aquela coisa desafinada, debilitada, sem vida que marcou muito especialmente os pagodeiros. É outra história. Sena tem bela voz amparada por Cesar Peixinho (percussão e voz), Pixu (percussão) e Naná de Nazaré (percussão e voz).
Em meio às composições contemporâneas os rapazes prestam homenagem ao passado, trazendo um clássico de Edésio Deda, ‘‘Chupando Gelo’’. Chico César faz aqui uma participação especial, no divertido diálogo entre pai e filho. ‘‘Tu tá cumendo vidro?/ Não pai, eu tô chupando pedra d’água’’. Nervoso o pai quer que o filho jogue ‘‘esta peste fora’’, pois jogou-a dentro do saco, ‘‘escondi que ninguém viu/ molhou a farinha toda/ me deu trabalho e sumiu’’.. Um disco para se dançar, ou simplesmente ouvir e se deleitar com nossos poetas sonoros. (Z.C.L.)

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