Ele não é o garoto da capa, nem ilustra calendário, como os padres romanos que em nome da fé aceitaram posar de modelos, mas as suas fotos circulam pelos batalhões de polícia e delegacias desde que decidiu, além de honrar a farda, se tornar ator de teatro.
Depois de 15 anos de carreira militar, o soldado Martins concluiu curso de interpretação pela Escola Municipal de Teatro e agora é o ator Alex Martins, que se prepara para tirar o registro profissional no Ministério do Trabalho.
No espetáculo de formatura, ''A Flauta Mágica'', uma adaptação da ópera de Mozart (1719-1761), que teve temporada recentemente, Alex fez como os grandes atores ao roubar a cena com o personagem secundário Papageno.
Como soldado Martins, Alex integra o pelotão de motociclista da Companhia de Rádio Patrulha, do 5º Batalhão de Londrina. No palco encarnou o homem alegre, que aprecia os prazeres da vida e que trabalha para a Rainha da Noite.
O personagem tem um encontro com Tamino, o protagonista da ópera, que estava perdido na floresta, contando-lhe que a filha da Rainha da Noite foi sequestrada por Sarasto.
Apaixonado pela beleza da jovem, Tamino decide resgatá-la.
Papageno caiu no gosto das crianças que assistiram à apresentação e, apesar do figurino que o deixa praticamente irreconhecível, Alex não passa batido pela garotada.
Ele conta que num supermercado londrinense, crianças começaram a chamá-lo pelo nome do personagem ''Papapageno, Papageno''.
Minutos de fama que levaram mais de três décadas para se realizar. Aos 35 anos de idade, o sonho de ser ator o acompanha desde a adolescência, mas, somente há pouco tempo Alex tomou coragem de enfrentar o palco.
''Rapaz, se é mais difícil ser ator ou policial? Acredito que os dois porque as duas profissões sofrem preconceito''comenta Alex, que também faz faculdade de Pedagogia, pretendendo conciliar ainda a educação com a atividade teatral.
Preconceito que começa na corporação militar. Alex conta que, em princípio, a esposa, Raquel, não gostou muito da idéia do marido, além da faculdade, arrumar mais um compromisso com as aulas de teatro. No batalhão, os colegas de farda também não pouparam brincadeiras.
Porém, na curta temporada de ''A Flauta Mágica'', a mulher, a filha Maria Eduarda, de 3 anos, os amigos e vizinhos foram conferir o desempenho do militar/ator, que já interpretou um monólogo baseado na crônica ''Trapezista'', de Luís Fernando Veríssimo, e ''Vestido de Noiva'', de Nelson Rodrigues.
Alex diz que a arte ajuda a aliviar o estresse da carreira policial e que para concluir o curso não foi fácil já que, na maioria das vezes, não tinha tempo nem para jantar, antes de ir às aulas de interpretação.
''Na polícia você tem a questão do militarismo, a disciplina. O teatro relaxa um pouco mais. Isso acaba favorecendo o trabalho policial, melhorando o relacionamento com o público. Porém, sempre tive essa vontade. Foi uma questão de adaptar o meu tempo na polícia, a faculdade e as aulas de teatro'', avalia, acrescentando que o mais difícil ao buscar uma nova carreira numa certa altura da vida foi ultrapassar as próprias barreiras.
''Para o homem, quando se fala em artista, sempre vem à cabeça atores como Sylvester Stallone, Arnold Schwazenegger, Vin Diesel e Jean-Claude Van Damme, que fazem filmes de violência. Ao contrário, eu sempre gostei de Paulo Autran. Para mim, a arte teatral é uma forma de levar alegria para o povo tão sofrido. Hoje, você convive com tragédias e acidentes por todo lado e, durante uma hora de apresentação teatral, o ator consegue fazer as pessoas esquecerem até dos problemas''.

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