Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Ele era um homem grande, forte e bom de papo. Louco por uma briga, gostava de aumentar suas proezas. Machão, sentia-se seduzido pelas guerras. Era capaz de trocar qualquer coisa por uma caçada ou pescaria - até mesmo a arte que lhe fez conhecido no mundo todo, a literatura. Isso porque sua literatura se nutria de suas aventuras. Isso porque suas aventuras eram banhadas de literatura.
Esse homem, Ernest Hemingway (1899 - 1961), um pouco esquecido nos dias de hoje, influenciou várias gerações que se dedicaram à literatura, e ao jornalismo. Nas redações dos jornais, por exemplo, os mais experientes recomendavam a leitura dos livros do escritor aos novatos que desejassem aprender a escrever. No meio literário, suas obras eram aulas de construções claras, livres do excesso de adjetivos.
No centenário de seu nascimento, que será comemorado na quarta-feira, um trecho de um de seus famosos romances, ‘‘Adeus às Armas’’, pode sintetizar vida e obra de Hemingway, um dos maiores romancistas norte-americanos deste século: Se alguém vem ao mundo com muita coragem, o mundo tem que matá-lo para poder dobrá-lo, e de fato o mata. O mundo dobra qualquer um e muitos continuam fortes mesmo nas partes que foram dobradas. Mas o que se recusam a serem dobrados ele mata. Mata os muito bons e os muito delicados e os muito corajosos. Se você não é nenhum desses será morto também, mas não há pressa.
Ernest Hemingway nasceu em 21 de julho de 1899, em Oak Park (Estado de Illinois, EUA). Desde cedo demonstrou interesse pelo mundo das letras. No colégio escrevia histórias e artigos para o jornal acadêmico da escola. Aos 18 anos de idade, contrariando os pais, mergulhou no jornalismo ingressando como repórter no jornal ‘‘Star’’ de Kansas City.
Em 1819, sob o impacto da início da Primeira Guerra Mundial, alistou-se como voluntário da Cruz Vermelha seguindo para o front na Itália. Após uma semana na frente de combate, é gravemente ferido nas pernas pela explosão de uma granada.
De volta aos Estados Unidos passa a trabalhar em vários jornais, viajando por várias regiões como repórter. Dessa experiência jornalística, Hemingway desenvolveria um estilo próprio de escrita que se estenderia para toda a sua produção literária. Suas regras de estilo exigiam frases curtas, o mínimo de adjetivos e informação apresentadas de maneira clara.
Em 1921 fixa residência em Paris trabalhando como correspondente estrangeiro do jornal ‘‘Toronto Star’’. Com o dinheiro contado, perambulando de bar em bar, passa a conviver com Ezra Pound, Gertrude Stein, Scott Fitzgerald, James Joyce e outros importantes escritores refugiados na capital francesa após o fim da guerra.
Foi um importante período no aprimoramento literário de Hemingway que optou por deixar o jornalismo de lado para se dedicar à literatura. Estes anos em Paris são relatados por Hemingway no livro autobiográfico ‘‘Paris é Uma Festa’’ (1960). Neste período realiza várias viagens à Espanha para acompanhar touradas - uma de suas paixões além do boxe, a caça e a pesca - e lhe inspiraria seu primeiro livro de sucesso, ‘‘O Sol Também se Levanta’’ (1926).
De volta aos Estados Unidos se dedica à pesca esportiva em águas cubanas e a caça em safares realizados no interior da África. Em 1937 volta ao jornalismo fazendo a cobertura da Guerra Civil Espanhola, experiência que resultaria no romance ‘‘Por Quem os Sinos Dobram’’ (1940). A essa altura, Hemingway já era aplaudido como o mais importante escritor dos EUA apreciado em todo o mundo.
Estabelecendo residência em Cuba, publica em 1952 a novela ‘‘O Velho e o Mar’’ (The Old Man and the Sea), ganhando o Prêmio Pulitzer. Dois anos depois, em 1954, é agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura. Uma de suas obras mais emblemáticas, ‘‘O Velho e o Mar’’ narra a história de um velho e humilde pescador que, após 84 dias sem apanhar um único peixe, avança seu pequeno barco pelo mar num desafio contra o destino.
Consegue então fisgar o maior peixe de sua vida. Uma batalha tem início entre peixe e pescador, uma guerra física e existencial. Após dias de batalha em alto-mar, muito além de suas forças, o pescador atinge a vitória, dominando o peixe, matando-o. Como o peixe é muito maior que seu pequeno barco, amarra-o em sua lateral e parte de volta à praia. No trajeto sua presa, seu troféu, é atacado e devorado por tubarões.
Enfim chega em casa, morto de cansaço, fome e sede. Após vencer uma batalha, volta derrotado. Hemingway realiza uma simbólica fábula sobre a condição humana, o homem que luta pela sua existência e no fim da vida perde tudo, ou seja, perde a existência, a vida. É desta obra a frase mais conhecida do romancista: O homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído mas nunca derrotado.
Ernest Hemingway defendia que um escritor só deveria escrever sobre aquilo que conhece. Afirmava que não existia imaginação pura em literatura: Ninguém extrai idéias, conceitos e caracteres do nada. Meus próprios romances podem ser considerados biográficos, num certo sentido, pois, longe de ser ficção pura, eles promanam de uma experiência vivida. Ao compor um texto, procurava eliminar tudo aquilo que era desnecessário.
Seu objetivo era transmitir essa experiência ao leitor de tal forma que, após ler o texto, este se torne parte de sua própria experiência de maneira que pareça ter acontecido de verdade. Da mesma forma, se um escritor sabe o bastante sobre aquilo que está escrevendo, pode omitir coisas, e o leitor, caso o escritor tenha escrito com suficiente verdade, sentirá essas coisas como se elas tivessem sido postas no papel.
A clareza era uma verdadeira obsessão de Hemingway em seu ofício. Num ato lendário, reescreveu 39 vezes a última página do romance ‘‘Adeus às Armas’’ até achar as palavras exatas. Criticava de maneira ferina os escritores que escreviam de maneira complexa, como se houvesse algo misterioso dentro do texto, onde o leitor precisasse desvendar algum mistério entre uma frase e outra.
Em suas palavras, se um homem escrevesse com bastante clareza, todo mundo poderia ver o quanto de mentira há no que ele diz: Se mistifica para evitar uma frase direta, sem dúvida leva mais tempo para ser desmascarado. Mistificar onde não existe mistério é apenas a necessidade de iludir para esconder a falta de conhecimento ou a incapacidade para dizer as coisas claramente.
Os últimos anos de existência de Hemingway foram trágicos. Sofreu dois graves acidentes de carro e dois acidentes aéreos. O avião em que viaja durante um safári na África caiu. Ferido, foi socorrido por outro avião que também acabou caindo. Na época os jornais chegaram a noticiar sua morte. Mas o estágio mais amargo de sua deterioração foi o avanço de um maníaco sentimento de perseguição que culminou com sua internação, por dois período diferentes, em 1960 e 1961, numa clínica para doentes mentais.
Submetido a um tratamento de eletrochoques, passou a ser alimentado com pesados sedativos. De volta à sua casa, no dia 2 de julho de 1961, acordou ao raiar do dia, abriu o quarto em que guardava suas armas e escolheu uma de suas favoritas, uma espingarda ‘‘Boss’’ de dois canos, carregando-a com dois cartuchos. Caminhou até a varanda, sentou-se, colocou os dois canos da arma na testa e puxou o gatilho.
Hemingway repetiu o mesmo gesto realizado por seu pai 33 anos antes, em 1928. Numa manhã, também de inverno, após queimar documentos pessoais, o pai trancou-se no quarto. Colocou seu revólver favorito, um ‘‘Smith’’, no ouvido direito e puxou o gatilho. Revólver que, posteriormente, integraria a coleção de armas do filho.
Grande parte da literatura do romancista mostra personagens que lutam com todas suas forças para erguer uma existência afirmativa e, no fim da vida, acabam perdendo tudo que ergueram ou pretendiam erguer. Mais especificamente, a existencial solidão do homem diante dos problemas de viver como de morrer. Em seu livro ‘‘Morte na Tarde’’, um ensaio sobre a tauromaquia (a arte a tourear) Hemingway realiza uma comparação entre o ato de matar e o ato de morrer.
Declara que ‘‘matar limpamente’’ sempre foi uma das maiores satisfações de boa parte do gênero humano: Uma vez compreendidas as regras da morte, ‘não matarás’ é um mandamento a que se pode obedecer fácil e naturalmente. Mas quando o homem ainda está em rebelião contra a morte, sente imenso prazer em incorporar um dos tributos divinos: o de administrá-la. Este é um dos mais profundos sentimentos para homens que gostam de matar. Seja matar seres ou coisas à sua volta, ou matar a si mesmo.

Obras de Ernest Hemingway
- Três Contos e Dez Poemas (1923)
- Nosso Tempo (1924)
- O Lar do Soldado (1926)
- As Torrentes da Primavera (1926)
- O Sol Também se Levanta (1926)
- Adeus às Armas (1929)
- Homens sem Mulheres (1927)
- Morte na Tarde (1932)
- O Vencedor Nada Leva (1933)
- Verdes Colinas de África (1935)
- A Quinta Coluna (1937)
- Ter e Não Ter (1937)
- Primeiros Quarenta e Nove Contos (1938)
- Por Quem os Sinos Dobram (1940)
- Do Outro Lado do Rio Entre as Árvores (1950)
- O Velho e o Mar (1952)
- Paris é uma Festa (1960)
- As Ilhas da Corrente (1961)
- Verão Perigoso (póstumo)
- O Jardim do Éden (póstumo)
- True at First Light (obra inacabada, publicada no mês passado nos EUA)Na quarta-feira, comemora-se o centenário de Ernest Hemingway, um dos maiores e mais polêmicos escritores deste século
Arquivo FolhaErnest Hemingway: machão, louco por pesca, obcecado pela clareza da informação e, sobretudo, um homem da palavra que influenciou várias gerações

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