Um toque feminino na noite londrinense
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 09 de março de 2009
Adriana Ito<br>Reportagem Local 
Entre tantas opções musicais na cidade, uma constatação: boa parte delas é masculina. São poucas as mulheres que encontram tempo para se dedicar à música, infelizmente, já que inúmeras atribuições acabam tomando conta de seu dia a dia. Mas as que se arriscam sempre se dão bem, seja pela qualidade do trabalho, seja pelo bem que proporcionam a si mesmas.
A professora universitária Maria Irene e a técnica de laboratório Sílvia Borba cantavam no coro feminino da Universidade Estadual de Londrina (UEL), mas sentiam que a atividade não era suficiente para expressar tudo o que elas gostariam através da música. Em um encontro com Bete Frigeri, que toca violoncelo na Orquestra Sinfônica da UEL, resolveram formar um grupinho no qual poderiam ampliar o repertório.
Daí convidaram a amiga Regina Reis, da Secretaria de Cultura, que levou Mauren Picelli da Vila Cultural, entrou Camila Linhares e por fim a também docente Márcia Néster. Estava formado o Entretantas, grupo de sete mulheres que, segundo elas próprias, já não entra mais no céu. ''Não dizem por aí que no céu não cabem mais do que cinco mulheres, se não vira um inferno?'', riem.
Durante a entrevista à FOLHA, realizada na última quinta-feira no Tomate Seco Café Teatro (onde devem se apresentar toda primeira quinta-feira do mês até dezembro), ficou muito claro que esse clima de intimidade e descontração toma conta sempre que essas mulheres se reúnem. Isso se reflete também na performance do grupo, com todas bastante à vontade para mostrar sua música com toda a feminilidade. ''Pena que a Camila não pôde vir, está fazendo doutorado em outra cidade'', lamentaram.
No início, a ideia era tocar MPB, mas foi no samba que essas mulheres se encontraram. Os poucos instrumentos (violão, cavaquinho e percussão) são complementados pelo trabalho vocal em arranjos diferenciados para canções de Cartola, Dona Ivone Lara, Adoniran Barbosa, Chico Buarque, Caetano Veloso, Marisa Monte e outros. ''Tocamos pelo simples prazer de fazer música. Mas seria muito egoísmo ensaiar e tocar só para nós, então resolvemos começar a nos apresentar'', explica Bete, a única que realmente vive de música no grupo.
Se o grupo se formou meio que por acaso, assim também se deu a escolha do nome. ''Estávamos procurando um nome, e aí começamos a brincar com Entretanto, título de uma música da Mart'nália, até que chegamos a esse. Entre tantas opções, entre tantas mulheres...Entretantas'', revelam.
O fato de se tratar de um grupo formado só por mulheres, além de ''um charme'', como elas mesmas definem, é um diferencial entre os grupos locais. ''A mulher tem um lado mais sensível, a música fica mais delicada. E nós temos uma preocupação com o refinamento, somos mais detalhistas'', analisam.
Dedicadas, elas pesquisam, estudam e se policiam para melhorar a performance cada vez mais. ''A Bete, a Regina e a Márcia têm uma formação musical melhor, e nos baseamos nelas para ir refinando nossos sentidos. Elas também identificam nossos erros, porém sem nunca cercear nossa atuação'', comenta Maria Irene.
Entre muita conversa, gargalhadas e uma boa comilança elas ensaiam nas tardes de sábado, cada dia na casa de uma. ''A Bete é especialista em doces e bolos. Já Maria Irene faz pratos salgados deliciosos, e Sílvia manda bem na culinária regional'', definem as outras três, reconhecendo-se especialistas em saborear os quitutes.
Assim, os ensaios acabam se tornando uma desculpa para essas mulheres de vidas completamente diferentes passarem uma tarde agradável entre amigas, onde sempre há espaço também para desabafos, apoio e muita compreensão e respeito diante das ocasionais variações de humor. ''Você não imagina o valor que têm esses encontros. É impossível ficar um tempo sem encontrá-las. É muito prazeroso. Eu amo todas vocês'', diz Sílvia, para receber como resposta uma gargalhada geral, mas cúmplice.


