Nos últimos 40 dias, a rotina do escritor João Ubaldo Ribeiro foi acordar cedo, fazer pequenos passeios pelas ruas da infância, saborear a caprichada comida baiana e beber copos e mais copos de sucos de fruta. O autor de ‘‘Viva o Povo Brasileiro’’ e ‘‘O Sorriso do Lagarto’’ foi convidado pela irmã para passar uns dias na casa da família em Salvador. A pressa para tirar umas merecidas férias terapêuticas foi tanta que João Ubaldo se recusou a participar da noite de autógrafos de ‘‘Arte e Ciência de Roubar Galinhas’’, uma seleção de crônicas escritas na década de 80. ‘‘Esqueço o nome da pessoa, a mão treme, não sei fazer dedicatória, é um horror... Para dar vexame, prefiro ficar em casa’’, exagera.
As repentinas férias na casa da irmã Sônia na Bahia têm a ver com uma indesejada crise depressiva que se arrasta desde o final do ano passado, quando o acadêmico de 55 anos assumiu publicamente a dependência por bebida alcoólica. Apesar do tratamento, João Ubaldo Ribeiro diz que não tem tempo a perder. Ele está preparando ‘‘A Casa dos Budas Ditosos’’, o quarto volume da Coleção Plenos Pecados, da Editora Objetiva. Na novela pornográfica, ele promete deixar os leitores ruborizados ao narrar as peripécias sexuais de uma fogosa sexagenária. ‘‘Quiseram me empurrar a preguiça, mas não aceitei. Só por que sou baiano?’’, questiona, bem-humorado.
Qual foi o critério na escolha das crônicas de ‘‘Arte e Ciência de Roubar Galinhas?’’
João Ubaldo Ribeiro - A maior parte das crônicas deste livro se passa na época em que eu morava em Itaparica. Uma delas, por exemplo, é do tempo em que eu roubava galinhas. Os editores da Nova Fronteira fizeram uma pré-seleção e a submeteram à minha aprovação. Tive o cuidado de optar por crônicas mais perenes e menos datadas.
Qual é a lembrança mais forte que você guarda da ilha de Itaparica?
João Ubaldo Ribeiro - As lembranças que tenho são as melhores possíveis. Eu era um viciado em bola. Não era um bom jogador, mas era um ponta-direita bastante aplicado. A minha especialidade era dar um chutão para frente e apostar corrida com o lateral esquerdo. Naquela época, eu era magrinho e corria à beça... Infelizmente, tive de encerrar minha carreira prematuramente como zagueiro central.
Por que você resolveu se mudar para o Rio?
João Ubaldo Ribeiro - Quando conheci minha mulher, ela já morava no Rio. Só que a despesa que eu tinha aqui era enorme. De vez em quando, a Globo me encomendava alguma coisa. Mas era tudo muito incerto. Em Itaparica, eu tinha casa, comida e roupa lavada. No Rio, eu era um biscateiro literário. Se aparecesse encomenda para bula de remédio, eu escrevia. Mas se não aparecesse, ficava num mato sem cachorro. Hoje, vivo das crônicas que escrevo para os jornais.
Você já conseguiu finalizar o quarto volume da ‘‘Coleção Plenos Pecados?’’
João Ubaldo Ribeiro - Estou com uma vergonha danada, porque não tenho mais desculpa para dar ao pessoal da Objetiva. Até tentei adiantar alguma coisa em Salvador, mas não consegui. Só consigo trabalhar em casa. Meu escritório parece uma alcova literária. Não tenho previsão de lançamento. Tenho de adiar outros compromissos para entregar logo esse livro...
É verdade que a Editora Objetiva tentou convencê-lo a escrever sobre a preguiça?
João Ubaldo Ribeiro - É verdade, sim. Não é só porque sou baiano que tenho de escrever sobre a preguiça... Por isso mesmo, preferi a luxúria. Estou escrevendo uma novela pornográfica que conta a história de uma mulher completamente devassa. Ela é culta, inteligentíssima, mas completamente devassa. Parece até que ela não fez outra coisa na vida senão sacanagem...
Você está conseguindo superar a fase depressiva?
João Ubaldo Ribeiro - Depressão é sempre inexplicável. Comecei a piorar depois que um monte de coisa boa aconteceu na minha vida. Fui eleito para a Academia Brasileira de Letras e comprei esse apartamento com o dinheiro que ganhei da venda de ‘‘Viva o Povo Brasileiro’’ para o cinema. Parecia até olho grande. Hoje, estou bem melhor. Não passo nem na porta de boteco. Só espero que tenha saído definitivamente da depressão para nunca mais voltar.Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z NotíciasJoão Ubaldo Ribeiro: ‘‘Só consigo trabalhar em casa. Meu escritório parece uma alcova literária’’André Bernardo
Cult Press

mockup