Um toque de classe
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quarta-feira, 07 de janeiro de 2015
Luana Borges<br>TV Press 
A postura altiva e a elegância de Silvia Pfeifer chamam atenção. E dão a ela o "physique du rôle" para viver personagens "classudas". Basta analisar seu currículo para perceber que esse perfil é comum em sua trajetória de cerca de 25 anos na televisão. Atualmente no ar como a Úrsula, de "Alto Astral", Silvia interpreta mais uma mulher chique. Mas, apesar de ser um universo conhecido, ela se sente estimulada com o papel, que exige a exploração de várias facetas que vão além do viés do requinte. "A Úrsula está me dando muitas possibilidades e um certo trabalho porque tenho de aprender a me fazer de vítima e a ter o prazer da maldade ao mesmo tempo. Minha preocupação é fazer bem", afirma a atriz de 56 anos.
Antes de estrear na televisão como protagonista de "Boca do Lixo", minissérie exibida pela Globo em 1990, Silvia foi modelo de passarela internacional. Mas a falta de experiência com a atuação não a impediu de ser escalada para personagens grandes, em tramas como "Meu Bem, Meu Mal", também de 1990, "Perigosas Peruas", de 1992, e "Tropicaliente", de 1994, entre outras. Já a partir dos anos 2000, sua presença na tevê se tornou menos constante. Isso porque, entre uma participação e outra, ela morou um período nos Estados Unidos e em Portugal. "A década de 1990, que foi exatamente a década em que eu comecei, para mim, foi a mais fértil. Os papéis que me marcaram mais foram os que fiz até 1998, até 'Torre de Babel'", avalia, referindo-se à novela de Silvio de Abreu em que encarnou Leila, que vivia uma relação homossexual com Rafaela, de Christiane Torloni.
Em "Alto Astral", Úrsula é uma mulher manipuladora, capaz de inventar uma doença terminal para manter o casamento. O que mais chamou sua atenção na personagem quando recebeu o convite?
Quando vim para a reunião com os diretores, autores e o Silvio de Abreu, que foi quem me convidou, e eles começaram a me falar sobre a personagem, fiquei ao mesmo tempo feliz e estarrecida, no bom sentido. Primeiro, pelo fato de terem me chamado para fazer a novela. E segundo, por voltar para a Globo, fazer uma novela com o Silvio, que foi com quem eu entrei na emissora, em "Boca do Lixo", e ainda interpretar uma pessoa com tantas possibilidades.
Como assim?
Para viver a Úrsula, eu tenho de aprender a me fazer de vítima e a ter o prazer da maldade. Em "Meu Bem, Meu Mal", fiz uma personagem que se tornava má ao longo da história. Mas agora ela começa má de uma maneira sutil, de uma maneira doente e depois vai mostrando ao telespectador que é má. Tem umas nuances que eu tive de realmente aprender a fazer, a trabalhar junto com o diretor e procurar sentir exatamente o que o autor estava me pedindo. E as cenas são muito bem estruturadas. São cenas pequenas, de uma maneira geral, mas com uma condução clara do que deve ser feito. Às vezes, são cinco falas. Em uma, tem a intenção da boazinha, na outra, aparece a malvada, mas sem querer se entregar. Essas nuances são trabalhosas e acho que ainda estou dando afinações.
A família da sua personagem começou a aparecer na terceira semana de novela. Essa entrada tardia influenciou na preparação do núcleo?
Nosso núcleo não teve encontro. Íamos ter, estava tudo marcado, mas começamos a gravar muito depois e não tivemos a preparação juntos. Conversei bastante, nos primeiros dias, com a Andréa Cavalcanti, coach da novela. Ela já estava com o grupo e foi trabalhando certas cenas comigo. E, como eu recebi os capítulos muito antes, fiquei digerindo aquilo, pensando naquela mulher. Fui decorar mesmo, não só estudar. Tanto que, no primeiro dia, gravei 14 cenas e nem toquei no papel. Eu sabia realmente tudo e sabia também a fala do outro. Mas, mesmo assim, precisei da Andréa para me encaixar em uma linguagem que já estava sendo gravada há mais de um mês pelos outros atores.
Você é conhecida por ser uma mulher elegante. E a maioria de suas personagens seguiu por esse perfil, assim como Úrsula. Esse rótulo já incomodou?
Ser elegante é uma coisa que eu tenho, não posso brigar com isso. É claro que, como atriz, eu gostaria de ter oportunidade também de fazer uma outra coisa. Não sei nem o quão difícil seria fazer essa outra coisa, mas acho que seria realmente difícil porque tenho esse jeito e teria de sair dele. Eu não vim de uma escola de teatro. Quando estreei, em "Boca do Lixo", eu não tinha experiência anterior que me permitisse fazer uma personagem que não fosse elegante. Mas também tenho de agradecer porque acho que não são todas as atrizes que podem se encaixar nessa exigência de ter esse perfil que eu tenho. Acho que, por um lado, prejudica e, por outro, me ajuda.
A sua estreia na tevê, aliás, foi logo no posto de protagonista da minissérie. Quais são as suas principais recordações dessa experiência?
Recebi muita crítica depois. Eu me preparei para fazer um filme que não fiz e essa preparação ficou gravada em fitas. A Bia Lessa, com quem eu fazia essa preparação, levou esse material para o Daniel Filho, que sugeriu meu nome ao Roberto Talma, que queria lançar alguém para fazer "Boca do Lixo". E eu tive a sorte de ser escolhida por ele. Não sabia que era tão difícil, fui na ingenuidade, digamos assim.
Por quê?
Eu não sabia nada, não tinha experiência. O que consegui fazer foi mérito da direção do Talma, foi a visão dele. Até porque eu disse "sim" e, em menos de 72 horas, já estava no local gravando. Tive preparação zero. O pique de gravação era tão puxado que, às vezes, eu decorava o texto no deslocamento entre uma cena e outra. Talvez, se eu tivesse um pouco mais de preparo, o Talma tivesse conseguido tirar mais ainda de mim. É claro que, se eu não tivesse dado nada, talvez não tivesse sido chamada para, em seguida, fazer uma novela e nem teria ficado nessa profissão. Foi uma chance que eu tive e que bom que aconteceu. Foi o que me tornou atriz. Mas foi um susto! Foi muito difícil e desgastante para mim. Por causa disso, acho que as críticas foram muito intensas.
O quão difícil foi lidar com elas?
É muito difícil a gente lidar com crítica ruim. Logicamente, hoje em dia, estou mais acostumada, mas não é nada agradável você acordar, sentar para tomar café da manhã, abrir o jornal e ler uma crítica horrível sobre você. Ainda mais porque eu não estava acostumada naquela época. Eu era uma modelo famosa no meu meio, mas tinha muita gente que não me conhecia e questionava: "Quem é essa mulher? Como ela entrou para fazer protagonista?".


