Já imaginou fazer suas compras de mercado ao som de Aquarela do Brasil, de Toquinho, ou de Garota de Ipanema, de Tom Jobim, ou ainda de algum sucesso de Vinícius de Moraes? Tomar um cafezinho ouvindo temas clássicos, ao vivo, interpretados pelas mãos ágeis de um grande pianista?
O nome dele é José Idomineu da Silva, conhecido como Zequinha. Pela quantidade de apresentações em países de língua espanhola tornou-se ZequiÀa, o pianista. Com 11 cds gravados, e um DVD que será lançado em julho, o músico se apresenta como autodidata e conta que começou tocando acordeon com o pai. Nordestino, ele não revela a cidade onde nasceu, mas se considera carioca.
Com 10 anos migrou com a família para a cidade maravilhosa. ''Tudo acontecia no Rio. Os grandes cantores se apresentavam nas rádios Tupi e Nacional, e eu queria estar nesse meio''. Nessa época ZequiÀa entrou no conjunto ''Os Maracajás'', que significa gatos bravos. A jovem guarda conquistava o Brasil e o grupo era contratado para acompanhar os cantores. ''O Big-boy, que fazia a programação da rádio Tupi, se tornou um grande amigo e sempre nos escalava para tocar, uma oportunidade de trabalhar e fazer o que eu mais gostava. Éramos da mesma safra dos The Fevers.''
Na década seguinte, com o surgimento da TV, os cantores se apresentavam na Tupi e Excelsior. ''Não existia play back, era tudo ao vivo. Os músicos eram mais valorizados. Foi na tv Excelsior que conheci o Roberto Carlos. Comecei a tocar com ele no circo. O circo era o lugar da arte. Nele conheci Angela Maria, Emilinha Borba e Nelson Ned. Sempre tocava com eles.''
Com o surgimento das gravações e do comércio de discos o pianista se dedicou a outros públicos. Tocou em cruzeiros e hotéis. Morou em Buenos Aires, Porto Rico e na cidade do México, sempre vivendo da música.
O pianista faz uma crítica às novas gerações, que segundo ele não valorizam o melhor da música brasileira. ''A boa música de nosso país não é conhecida e prestigiada aqui, mas sim lá fora. As novas gerações brasileiras não dão o devido valor aos verdadeiros músicos que nosso país teve. Toquinho e Vinícius de Moraes ficaram no mundo. As pessoas lembram-se do Brasil pelo nome deles.''
Aos 71 anos, ZequiÀa considera raro achar pianistas profissionais no Brasil. Menos ainda encontrar músicos com sua idade se apresentando. Ele toca 10h por dia, em apresentações, e outras horas que não contabiliza, apenas por prazer, por dedicação à sua arte. ''Sou autodidata. Decoro a melodia e vou embora. As mãos seguem o que quero. Como toco sozinho, trabalho com as duas mãos cheias e o piano sai com som de orquestra. Estou aposentado, mas não vou parar. Essa é minha vida.''
Um piano popular
Há 10 anos ZequiÀa deu uma virada em sua carreira. Ele deixou os palcos, as luzes e o glamour de apresentações para públicos seletos, de hotéis cinco estrelas, para se aproximar das pessoas, levar sua arte e usar dela para passar uma mensagem.
Ele se diz realizado ao ver que muitas das pessoas que acompanham suas apresentações atuais nunca tinham visto um instrumento nobre de perto e nem um pianista tocando ao vivo. ''Não tem nada melhor do que ter esse contato direto com o público. Às vezes as pessoas já estão com os carrinhos cheios, mas não saem do mercado porque querem ouvir mais música.''
Quem se aproxima do músico, nos supermercados onde ele se apresenta, pode pedir suas músicas preferidas, ouvir suas histórias e ver jornais e álbuns onde ele aparece lado a lado com grandes cantores. Os clássicos da MPB são sempre os mais lembrados e enquanto ele toca, sempre há quem cantarole ou batuque no carrinho o ritmo das músicas.
''Para tocar piano é necessário paciência e dedicação. Os jovens hoje não têm mais tempo. Querem coisas imediatas. Que bom seria se houvesse mais músicos e menos drogados, menos jovens que vivem na violência.''
Antes de chegar em Londrina ele se apresentou na Rede Walmart, em Curitiba. Esta semana o pianista se apresenta no Super Muffato da Quintino e depois vai para a loja da Madre Leonia. Em julho suas apresentações serão na unidade da rede na Avenida Tiradentes e no mês de agosto no Muffato ao lado do Hospital Universitário, (H.U.). ''No fim do ano eu fico em casa, com minha esposa. Moramos em Camboriu, Santa Catarina. O fim do ano é para descansar e namorar.''
Serviço
- 'Um piano popular, um piano que louva a Deus', ZequiÀa. Os CDs custam R$ 15 e podem ser adquiridos no local das apresentações ou pelo telefone (47) 3263-1333.

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