UM TITÃ LONGE DO ROCK
O Guilherme Arantes dos Titãs tirou o atraso. A Minha Cara (Abril Music), primeiro disco-solo de Sérgio Britto, chega ao público repleto de baladas pop compostas ao piano.
Quem gostou da singela Nem Cinco Minutos Guardados, de sua autoria e incluída no CD Acústico MTV, vai se fartar. Além das músicas próprias, o disco inclui duas parcerias com o companheiro de banda Marcelo Frommer, duas com Arnaldo Antunes, uma com Torquato Neto (O Bem, o Mal) e uma versão de Jorge Mautner-Nelson Jacobina (Cinco Bombas Atômicas).
Apesar de ter criado boa parte das canções ao piano, Britto aparece só diante do teclados apenas na faixa Pensamento 2, com letra circular de Antunes. O lançamento vem ocupar a temporada de férias da banda paulistana coincidindo com a retomada dos projetos-paralelos dos demais integrantes. Além de Sérgio, outros titãs estão em atividade. Nando Reis circula pelo país com a turnê de seu terceiro CD, Paulo Miklos finaliza as gravações de seu novo trabalho, Charles Gavin dedica-se ao resgate de discos fora de catálogo para a série Dois Momentos e Branco Mello faz shows com seu grupo S Futurismo.
Com Branco, aliás, Britto já havia incursionado fora dos Titãs montando a banda Kleiderman, de pífia repercussão. Entrevistado pela Folha na última sexta-feira, ele explicou que A Minha Cara é resultado de uma necessidade antiga. Há muitos anos eu queria gravar um disco que tivesse a minha assinatura, desde a escolha do repertório até o formato das músicas. Como eu tinha muitas composições acumuladas, decidi dar vazão a essa vontade contou.
Britto acrescentou que tem material suficiente para gravar outro disco. Lembrou que, durante a fase de criação, procurou fugir do universo sonoro habitualmente associado à sua banda. Quis dar uma sonoridade limpa às canções privilegiando melodias sinuosas e harmonias mais ricas, tanto que incluí algumas músicas feitas ao piano, que nunca apareceram nos discos dos Titãs observou.
Nas letras, enveredou pelos temas cotidianos e em algumas faixas expôs um olhar sujetivo de pouco trânsito na obra do septeto paulista. Talvez não valha a pena repetir / O que todos cansaram de ouvir / Talvez não valha a pena ter os pés no chão / E ver as coisas como elas realmente são / Pode ser até ingenuidade minha / Ainda tenho a esperança que todo mundo tinha / E sei que as coisas nunca mudam sozinhas / Não sei se vou falar por todo mundo / Eu quero ver o lado bom que há em tudo / Não sei se vou falar por mais alguém / E quero ver o lado bom que tudo tem diz a letra de Igual a Todo Mundo.
Como se vê, o letrista Sérgio Britto é ainda um aluno principiante nas aulas de Arnaldo Antunes e Nando Reis. A gravação do disco foi rápida. Antes de entrar no estúdio, Britto já havia apresentado um esboço de repertório em três fitas-demo e realizado reuniões com o produtor Paul Ralphes e os músicos (entre eles, o guitarrista Tuco Marcondes, o baixista Renato Loyola e o baterista Cesinha). As sessões de gravação duraram 30 dias. Além de cantar, Sérgio Britto tocou órgão Hammond, piano, mellotron e guitarra.
Com exceção de Pedras Preciosas e Só Lembrança (esta com nítidas influências da banda inglesa The Who), o rock pouco aparece ao longo do repertório, predominantemente baladeiro. A curta Os Olhos do Sol, feita em parceria com Arnaldo Antunes, desponta como grande destaque ao lado da regravação de Cinco Bombas Atômicas, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, que recebeu uma versão dançante, com guitarra funkeada e arranjo para metais.
Uma das decepções é O Bem, o Mal, poema de Torquato Neto que Britto musicou, como já tinha feito anteriormente e infinitamente melhor com Go Back. Os primeiros shows de lançamento do disco serão realizados nas próximas quinta-feira no Rio e segunda-feira em São Paulo. Para a próximo ano, Britto planeja uma turnê nacional.





