Um tipo raro
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domingo, 17 de novembro de 2013
Marcos Roman<BR>Reportagem Local 
Bastaram alguns segundos para um diagramador formatar o título e o texto desta matéria que você está lendo agora. Função que décadas atrás era executada por tipógrafos, profissionais responsáveis por montar artesanalmente chapas de pré-impressão com letras impressas em metal num processo que demorava horas para ser concluído. A tecnologia praticamente extinguiu a profissão que é considerada uma das bases do design gráfico. Mas ainda existem pessoas que se dedicam a esse ofício, que exige paciência, criatividade e precisão.
Silvio Valduga é um desses raros exemplos. Em meio ao maquinário de ponta existente na gráfica da Universidade Estadual de Londrina (UEL), ele prefere se dedicar à tipografia. "Sou apaixonado pela minha profissão. A tipografia é como um quebra-cabeças. A gente tem que selecionar cada letra observando o tipo da fonte, o tamanho, a acentuação, as maiúsculas e minúsculas até montar a chapa de metal que dará origem à impressão. É uma arte minuciosa", justifica.
Silvio conta que começou a aprender a técnica da tipografia em 1982, ainda adolescente, quando morava no Rio Grande do Sul. "Fui convidado por amigos do meu pai a trabalhar no jornal O Celeiro, da cidade de Três Passos. Como não havia cursos nesta área, aprendi na prática a montar os títulos do jornal utilizando a tipografia. Demorei cerca de três anos para dominar a técnica", conta.
Após trabalhar no jornal por nove anos, Valduga se mudou com a família para Cambé. "O jornal de Três Passos fechou e eu vim trabalhar como tipógrafo numa gráfica em Cambé. Até que dois anos depois me inscrevi em um concurso da UEL. Abriram uma vaga e tinha 15 inscritos. A prova era apenas testes práticos e 13 deles desistiram porque acharam a tipografia muito complicada. Ficamos apenas eu e mais um senhor já de idade, mas acabei conquistando a vaga", lembra.
Desde que assumiu o cargo de tipógrafo da UEL em 2002, Valduga segue a mesma rotina. Em gavetas de madeira com diversos compartimentos ele guarda 48 tipos de letras de metal que dão vida a textos montados em chapas usadas para imprimir relatórios, capas de CD, formulários e outros impressos utilizados internamente por servidores de vários departamentos da UEL.
Até as linhas dos formulários são montadas nas chapas. "Dependendo do material a ser produzido, a montagem de uma única chapa chega a demorar duas horas, pois as letras precisam ser colocadas com efeito espelho antes de ir para a impressão. Mas nunca me estresso. A tipografia é como uma terapia para mim", compara.
Apesar da tipografia ser considerada obsoleta por muitas pessoas, Valduga acredita que a profissão não será extinta totalmente e destaca os pontos positivos do processo. "A tipografia é uma das principais disciplinas do curso de design gráfico. É ela que serve de base para o trabalho dos futuros profissionais. Além disso, o custo dos impressos produzidos através da tipografia é cerca de 80% mais barato em relação ao offset, sistema que demanda gastos com produtos químicos, fotolito e outros materiais", argumenta.
A paixão pela tipografia é tão grande que Valduga escreveu um livro inteiro utilizando a técnica. "Sou gaúcho e todo mundo sempre teve curiosidade sobre como é a vida no Rio Grande do Sul. Então, em 2003, lancei o livro Tradição e Cultura Gaúcha. Demorei dois meses para montar as 70 páginas do livro nas minhas hora de folga. Em compensação, tive um custo 90% menor do que teria se tivesse impresso de forma convencional os 330 exemplares que distribui aos meus amigos", salienta.
Pai de um menino de 4 anos, Silvio conta que pretende ensinar o ofício a seu herdeiro e também a outras pessoas para que o ofício de tipógrafo não seja totalmente esquecido. "Meu filho adora brincar as letras de metal e fala que quando crescer quer fazer o mesmo que eu faço. Também estou pensando em dar um curso de tipografia em parceria com os organizadores da Vila Cultural Grafatório", ressalta Valduga. Interessados em participar do curso de tipografia podem obter mais informações pelo telefone (43)3024-3533.
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