UM THRILLER VISTO E REVISTO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de outubro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Londrina<br> Especial para a Folha 2 
Ou talvez seja porque a produção comercial americana que abastece maciçamente os cinemas do mundo anda em fase crítica, não por causa dos fatos desencadeados nos Estados Unidos a partir de 11 de setembro, mas por precariedade mesmo, falta de qualidade, mediocridade. O mais grave problema que acomete este suspense realizado por Gary Fleder é o de evocar - involuntariamente ou não? - um número alarmante de outros filmes do mesmo gênero, alguns até superiores. Esta impressão é ainda reforçada pela presença de Michael Douglas: má escolha nas circunstâncias, já que a vedete de ''Atração Fatal'' carrega uma imagem fixada por vários papéis de bom pai de família atormentado por uma situação de crise.
''Refém do Silêncio''(veja a programação de cinema na página 5), adaptação do best-seller ''Don't Say a Word'', de Andrew Klavan, bebe em pelo menos duas fontes bem conhecidas: na forma, o citado ''Atração Fatal'', e na trama, ''O Preço de Um Resgate''. Os roteiristas Anthony Peckham e Patrick Smith Kelly também cortejaram inúmeros filmes em que a intriga se articula numa disputa de queda de braço entre um algoz e uma vítima.
Realizado doméstica e profissionalmente, o dr. Nathan Conrad (Douglas) é um destacado psiquiatra especializado em atender crianças em crise. Mora bem, num amplo apartamento em Manhattan - evidentemente pré-catástrofe. Na véspera do Dia de Ação de Graças, o médico é procurado pelo ex-colega Jerald Sachs (Oliver Platt) O motivo: atender uma garota de 18 anos (Britanny Murphy, na melhor atuação do filme) com tendências à auto-destruição e mergulhada em intrigante estado catatônico. A perspectiva é a pior possível, e caso não haja atendimento é provável que a menina termine sua existência amarrada a uma cama num hospício, segundo previsões do roteiro. O que o dr. Conrad não sabe é que ele vai ter que trabalhar muito para fazer com que a jovem paciente fale. É que uns ladrões de jóias liderados pelo brutal ex-presidiário Patrick (Sean Bean) raptaram a filha dele de oito anos, e querem que o médico consiga extrair da catatônica - na verdade filha de outro ladrão - um número com vários dígitos que a garota parece saber. Conrad vai ter apenas cinco horas para descobrir e entregar o tal número, e então rever a filha com vida.
Depois de um começo promissor, em que os fios se entrelaçam e preparam o espectador para o desenvolvimento da trama (que enigma teria deixado a garota em tal estado?), ''Refém do Silêncio'' parece se lembrar de que é mais um filme de Hollywood, e não um bom filme. As patologias de Michael Douglas emergem com força, e o o binômio ''fake'' violência-heroísmo bate na tela com total inverossimilhança. O que também incomoda é saber que o cinema americano não sabe mais concluir seus filmes. Seria por que jovens diretores como este Gary Fleder não têm tradição em conduzir a narrativa com segurança ou por que somente querem dar conta do polimento técnico? Seria bom que no primeiro caso fosse verdade, o que poderia significar aprendizado futuro. Quanto à outra hipótese, ela é particularmente desanimadora.


