É ótimo saber que cinema espanhol não se resume a Pedro Almodóvar, e que a produção ibérica é hoje uma das mais ativas e interessantes da Europa. ‘‘Entre as Pernas’’ (veja a programação de cinema na página 5) é apenas mais um fato a confirmar o crescimento artístico dos realizadores de Espanha.
Do diretor espanhol Manuel Gomez Pereira, este ‘‘Entre las Piernas’’ é o primeiro filme a circular comercialmente no Brasil, embora mereçam respeito pelos menos dois outros títulos que circularam nos últimos anos em festivais internacionais: ‘‘Boca a Boca’’(95) e ‘‘El Amor Perjudica Seriamente la Salud’’(96). E talvez por causa desses dois trabalhos ele tenha sido apressadamente rotulado como especialista em comédias românticas populares. Nada mais enganoso e reducionista, quando se depara com ‘‘Entre as Pernas’’. Gomez Pereira é bem capaz de enveredar por outros gêneros. Como o thriller sexual, por exemplo.
Dois obcecados sexuais - ou sexo-dependentes ou sexo-aditivos, no jargão da contemporaneidade da mídia - se encontram durante terapia de grupo e não resistem à tentação. O marido da mulher é policial e investiga uma morte mais ou menos ligada aos jogos sexuais dos insaciáveis. A partir daí, tudo se complica.
Três razões a justificar o nível de qualidade acima da média do objeto em questão. Para começar, um roteiro engenhoso que provoca, cativa e precipita o espectador, durante quase duas horas, nos tortuosos labirintos dos comportamentos sexuais e sua influência na vida privada, profissional e social dos personagens. Junte-se a isso uma direção firme, por vezes brilhante; uma fotografia sofisticada e uma montagem milimétrica que embaralha pistas, cruza destinos e administra um suspense temperado com hormônios diversos. E finalmente dois excelentes, magnéticos atores, Javier Bardem e Victoria Abril, que não hesitam em explorar todas as facetas, mesmo as mais sombrias, de uma estranha cumplicidade que une Eros e Tânatos. ‘‘Entre las Piernas’’ é um policial tórrido, em muitos sentidos almodovariano, mas que sabe como escapar das armadilhas da subserviência do modelo ou do déjà-vu.

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