Um thriller recheado de lições de moral
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quarta-feira, 18 de junho de 2003
Roberto Dias<br> Agência Folha 
Nova York - Por duas vezes, o diretor Joel Schumacher teve nas mãos um dos mais famosos super-heróis do cinema - Batman. Agora, ficou com um personagem que ele mesmo chama de ''bundão''.
Também já controlou orçamentos além da centena de milhões de dólares. Desta vez, não chega nem à casa da primeira dezena. Em um de seus filmes contou com uma das mais lembradas trilhas sonoras do cinema, a de ''Garotos Perdidos''. Aqui o som dominante é a voz grave e apenas a voz do mais rodado ator do elenco.
Pior ainda, seu cenário limita-se ao espaço de uma cabine telefônica, e ele tem só 12 dias de filmagem para juntar tudo isso. Ainda assim, Schumacher quer dar lição de moral em ''Por um Fio'' (''Phone Booth'', ''cabine telefônica'', no original), que estréia hoje no Brasil (veja programação de cinema na página 2).
Tenta espichar um tanto a envergadura de seu currículo, abrindo uma frente na qual ele em breve colocará até um musical, ''O Fantasma da Ópera''.
''Se as pessoas querem aproveitar ''Por um Fio'' apenas como um thriller, tudo bem. Mas há muitos níveis nele'', diz Schumacher, 63 anos, usualmente criticado por fazer filmes de cifras largas mais de US$ 700 milhões em bilheteria acumulada só nos EUA e raciocínios estreitos.
''Por um Fio'' conta a história de um relações-públicas sem caráter de Nova York (Colin Farrell) que tenta se equilibrar entre sua mulher e uma possível nova namorada. Sua corda bamba passa por uma cabine telefônica de Manhattan, da qual ele liga para a pretendida, de maneira a não deixar rastro nenhum para sua mulher.
Seu mundo de mentira, porém, começa a cair quando um observador não-identificado representado por Kiefer Sutherland, a ''voz'' do filme resolve enfiá-lo numa experiência bizarra.
Ao atender a ligação de seu observador, o personagem de Farrell está ''preso''. Se tentar fugir da cabine telefônica, poderá ser morto por seu interlocutor, que o observa, armado, de uma janela não-identificada da vizinhança.
''Há muitos pontos morais aqui'', diz Schumacher, que enumera os principais em sua opinião: glorificação da violência, paranóia sobre a privacidade e humilhação pública.
Enquanto o filme se divertiu com as coisas da vida, a realidade jogou com a ficção. Rodado há mais de dois anos, teve de esperar passar o trauma dos atentados de 11 de setembro de 2001. Esteve prestes a sair da geladeira no fim do ano passado, mas um atirador começou a cometer assassinatos na periferia de Washington, e a estréia acabou adiada outra vez.
Se reproduziu fielmente a realidade, ''Por um Fio'' tropeçou quanto tentou copiá-la de fato. Embora tente mostrar a cabine telefônica como real, ela não passa de ficção mesmo. O filme diz com todas as letras que a cabine fechada está plantada na rua 53 de Manhattan e é uma das últimas sobreviventes da troca por telefones públicos ''abertos'', sem proteção. Pois tal cabine simplesmente não existe nesse lugar e a rua mostrada nem é em Nova York, mas sim em Los Angeles.
Verdades e lições de moral à parte, Schumacher deve ter o que comemorar. O jornal inglês ''The Observer'', por exemplo, notou semelhanças entre a função do telefone em ''Por um Fio'' e em alguns filmes de Alfred Hitchcock. Coube ao ''Los Angeles Times'', porém, matar a charada. A idéia de colocar alguém numa cabine telefônica e largá-lo por lá quicou na frente de Larry Cohen, o autor do roteiro, num almoço que teve, há décadas, com Hitchcock.
''Por um Fio'', porém, acaba antes que as comparações com Hitchcock se alonguem o filme dura tão-somente 81 minutos.


