A antiga Catedral de Londrina abrigava muitos tesouros artísticos. Com sua demolição, há 30 anos, grande parte das peças foram espalhadas pêlos quatro cantos da cidade e até do Estado. A maioria ficou esquecida por muito tempo. Aos poucos, porém, com a mobilização da comunidade, estes tesouros começaram a ser resgatados. Foi o que aconteceu com o Órgão de Tubos e com os sinos que encantaram gerações de londrinenses.
Décadas de poeira
tornaram as cores desbotadas
Agora chegou a vez da Via Sacra - uma série de 14 quadros de gesso em alto relevo, representando o martírio e crucificação de Cristo - que adornava as paredes da antiga igreja retornar a seu local devido. Os quadros, ou estações - como são chamados -, ficaram, nestes 30 anos, em uma igreja de Tamarana, antigo distrito de Londrina. Resgatados por iniciativa do pároco da Catedral, monsenhor Bernardo Gafá, estão sendo submetidos a uma completa restauração, sob responsabilidade da artista plástica e professora de pintura londrinense Conceição Garcia Punhagi.
Segundo monsenhor Gafá, as estações devem ter, no mínimo, 50 anos de idade e são uma obra-prima em riqueza de detalhes - cada uma com, no mínimo, quatro figuras humanas bem representadas - , porém de autoria desconhecida. ‘‘Até onde pude constatar, elas já estavam há vários anos na antiga Catedral. Mas não há nenhum tipo de registro de onde vieram, quem as fez nem como vieram parar aqui. Procurei muito informações mas não encontrei nada’’ - conta.
Segundo ele, o fato da Via Sacra estar em Tamarana durante todo este tempo não era desconhecido da paroquia. ‘‘Mas não tínhamos como resgatá-los sem encontrar alguém para restaurá-los. Até que conhecemos a Conceição, que se dispôs a fazê-lo. Foi difícil encontrar alguém que fizesse o trabalho sem alterar a arte original’’ - conta.
Correções para conseguir a cor originalConceição, há mais de 20 anos atuando como pintora, já havia feito alguns trabalhos de restauração em telas. ‘‘Quando conversei com o monsenhor, achei que as estações fossem em telas. Quando vi estas relíquias, me deu um certo medo da responsabilidade. Afinal, trabalhar o gesso, na forma que foram criadas, seria muito difícil. Mas acho que está saindo bem’’ - afirma.
Preocupada com o valor artístico das obras, Conceição está trabalhando nas peças em sua própria casa, para onde levou apenas sete das 14 obras. Deixou o restante ao cuidados do monsenhor. ‘‘Preferi assim, são peças valiosas, grandes e pesadas. Não quis me arriscar a que acontecesse algum acidente’’ - diz.
Protegidas por molduras grossas em madeira de lei - que também estão sendo restauradas pelo marido de Conceição -, as peças estavam em mau estado de conservação. ‘‘Mas a maioria dos estragos eram causados pela ação do tempo e sujeira. Imagino que as peças deviam estar bem protegidas de vândalos, mas por serem muito pesadas, acho não eram feitas limpezas completas nelas’’ - diz.
Trabalhando há um mês nas obras, a artista ainda não terminou nenhuma. ‘‘É um trabalho minucioso e delicado pois as obras - que, para mim, são esculturas - são extremamente ricas em detalhes. Além disto, o gesso requer alguns especiais. Um dele é que não pode ser molhado’’ - diz.
Segundo ela, o primeiro passo na restauração é a limpeza da peça. ‘‘Elas estavam sujas e com as cores desbotadas. São décadas de poeira acumuladas, que escondiam a cor original’’ - conta. Só a limpeza de uma peça requer quase que um dia todo de serviço. Descobrindo a cor original, vem o passo seguinte: tentar obter das tintas modernas, o tom exato ou o mais aproximado possível. ‘‘Nestas peças foram usadas pigmentos e têmperas que não são mais produzidas. Estou usando todos os meus conhecimentos e técnicas para reproduzí-las’’ - conta a artista.
A pintura efetiva, porém, é um dos últimos passos do processo de restauração. Primeiro, é preciso cobrir com massa especial os trincos, ‘‘esfoladuras’’ e detalhes quebrados. ‘‘Em algumas peças estavam faltando narizes, dedos das mãos ou dos pés. Tive que reconstruí-los todos, esculpindo-os novamente’’ - diz. Detalhezinho: um nariz quebrado pode levar até cinco horas para ser refeito. Depois, cada uma das estações é lixada cuidadosamente, mesmo nas partes onde não foram feitas correções. ‘‘Só assim é possível conseguir, na pintura, um tom por igual’’ - explica.
O último passo é a pintura propriamente dita. ‘‘Estou seguindo as cores e a técnicas que foram usadas. Algumas coisas tive que pintar tudo de novo. Mas procuro sempre manter o tom envelhecido. O novo com aparência de velho. A minha intenção é que as peças pareçam que não foram mexidas’’ - garante.
Quando vai terminar a restauração, Conceição ainda não sabe. Mas, para ela, todo este trabalho está sendo um prazer.‘‘Estou fazendo com amor e dedicação. Trazer de volta a beleza original destas obras é gratificante. O seu valor histórico e artístico não tem preço. Não sei se algum artista, hoje em dia, se disporia a fazer um trabalho como estas esculturas. Gostaria de saber quem foi o autor e, se pudesse, cumprimentá-lo’’ - afirma.
Se algum leitor da Folha souber quem foi o autor da Via Sacra ou tiver informações possam levantar dados sobre a obra, por favor, entre em contato pelo fone (043) 374-2173. As informações serão repassadas ao monsenhor Bernardo Gafá.

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